Estive lá, mais uma vez, no passado dia 17 de Setembro. Apenas cerca de meia hora e já depois da meia-noite. Vi mais do mesmo, cada vez pior. Uma Assembleia que não é digna desse nome. Mas não sei que nome lhe haveria de atribuir. Marasmo, confusão, incumprimentos legais/regimentares vários, um caos. Troca de acusações, provocações e impropérios, linguagem grosseira e insultuosa, na boca de um Presidente de Junta e de consórcios seus, que nem em locais onde tal seria normal acontecer. Reis e senhores contra tudo e contra todos. Indisciplina total. Um clima de ressabiamento e ameaçadora vingança, sempre com os olhos no passado, em vez do presente e do futuro. Apesar do esforço de rigor, seriedade e profissionalismo na abordagem das diferentes matérias e documentos, nomeadamente por parte dos elementos do PS, e de escassos outros, não se consegue moralizar este órgão. Uma bancada afecta ao executivo amorfa, impreparada, de meros e meras figurantes, que ali caíram por acaso. Prepararam-se para defender os interesses da Freguesia? Não! Estudaram a documentação em análise? Não? Intervêm criticamente? Não! Limitam-se a esboçar rasgados sorrisos, às vezes gargalhadas, face aos disparates de alguns. Um verdadeiro circo. Uma espécie de festa a que até acorre algum público, desejoso de ver a banda a tocar no coreto, mas muito desafinada. E a essa hora o povo dorme, numa letargia que conduz a consequências catastróficas para a nossa Vila. Um desgoverno total, com membros do executivo, acabados de chegar, comodamente instalados, sem dados para apresentar com rigor, sem perceberem nada de nada, espaldados, apenas, pelo órgão que integram, em abstracto, no maior laxismo. Governar um território exige preparação técnica e humana. Exige, sobretudo, sentido de ver e civismo, grande capacidade de altruísmo. Uma Junta de Freguesia não pode ser um brinquedo na mão de crianças adultas. Fala-se da Assembleia de Freguesia por todo o lado, em Vila Nova de Gaia. Um cenário insólito. Muito triste.
Por mais participações para o tribunal administrativo do Porto, para a Inspecção Geral da Administração Local (IGAL) e outros departamentos, tudo se mantém numa aparente e anormal impunidade. E, entretanto, vamos ficando cada vez mais empobrecidos e esquecidos, no que respeita a Saúde, estradas, sinalização, limpeza e asseio de espaços públicos, lazer e bem-estar, etc. Em todas as frentes. Reafirmo a convicção de que longos anos de governo cansam, desgastam, mas deveriam ter promovido aprendizagem e progressão, o que não acontece. Esses longos anos geraram, sem retorno, acomodação, laxismo, um certo auto-endeusamento, uma autoconfiança desmedida e vazia de sentido, impunidade. Que mal vamos nós numa terra sem governo. Pelo menos ao nível da Assembleia de Freguesia, ainda se está a tempo de arrepiar caminho. Cumpra-se o regimento, quanto à gestão de tempos, moderem-se intervenções, exija-se de um executivo que se mantenha no seu papel legal, lembrando que a Assembleia é dos que para ela fora democraticamente eleitos e que o executivo está ali, órgão diferente, apenas para esclarecer, prestar informações e usar da palavra quando para isso for superiormente autorizado. Não intervir a torto e a direito, “mandar bocas”, interromper membros da assembleia no uso da palavra, desautorizar a Presidente da Assembleia, desrespeitar deliberações… numa catadupa de atropelos de gente impreparada e desrespeitosa da coisa pública. E, entretanto, o povo dorme. Por medo de retaliações ou por comodismo? Basta-lhe encenações teatrais e o aparente porreirismo presidencial, disseminado sem limites de café em café e nas esquinas na freguesia, sempre de olhos fechados, porque não vê buracos, paralelos levantados, árvores caídas, lixo amontoado…
José Manuel Couto
Texto publicado em http://www.vozdegrijo.com/