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O Poder da Palavra

De tão familiarizados com as palavras, raramente tomamos consciência do seu poder. Mas, afinal, somos feitos de palavras: palavras que atravessam os nossos dias e se constituem como plataforma de construção de ipseidade e de criação-consolidação de laços inter-comunicacionais, de vária ordem. Pensamos, agimos e somos (com) palavras. E o poder da palavra é tal que, às vezes, não podemos antecipar nem prever os seus efeitos. Como teorizou John Austin, nos anos sessenta do século passado, ainda que acerca dos actos de fala, a verdade é que, seja na realização oral seja na escrita, as palavras têm o poder de provocar certos efeitos sobre os sentimentos, os pensamentos e os actos de um auditório ou de leitores, mesmo quando não houve intenção deliberada de o fazer.  

Assim aconteceu relativamente a artigo que publicámos neste jornal, no passado dia 29 de Setembro, em homenagem ao Dr. Coelho de Moura, meu professor, colega de profissão e amigo. De forma imprevisível, o referido artigo parece ter ecoado no coração e na memória de alguns colegas, de ex-alunos e, sobretudo, da esposa e dos filhos. Certo é que, há dias, chegando a casa, depois de um dia de trabalho, me deparei com a presença de uma pessoa de rosto familiar, mas que, pelo inesperado da situação, não reconheci de imediato. Quem era? Precisamente a esposa do Dr. Coelho de Moura, profundamente sensibilizada pelas palavras que escrevi. Não nos víamos desde o ano 2000, desde as exéquias fúnebres do marido. Muito tempo… Neste imprevisível (re)encontro, trocámos longas palavras de saudade, histórias e memórias escritas no tempo e na alma. Enfim, virtudes de um simples artigo de opinião.

Uns dias depois, a Dª Maria Helena Coelho de Moura fez-me chegar um breve texto, que partilho, grato ao Audiência por se constituir como plataforma de aproximação:

“A família do Prof. Coelho de Moura não podia ficar indiferente à homenagem prestada pelo colunista José Manuel Couto, na vossa edição de 29-09-2010. Assim sendo, os “IMPULSOS DE CORAÇÃO” da família aqui estão para agradecer sensibilizada o testemunho dado por este ex-aluno e ex-companheiro de profissão que com ele viveu e partilhou experiências durante bastantes anos!

A perda física deste “Professor-Mestre-Amigo-Colega”-Pai e Marido jamais será beliscada pelo esquecimento, pois ele estará sempre bem vivo em todas aqueles que com ele privaram em qualquer campo: família, alunos, colegas e comunidade. Esta última a quem ele se entregava de “corpo e alma”, sempre que podia e, muitas vezes, mesmo “inventando” tempo para o fazer!

Foi assim, até aquele malogrado dia 5 de Janeiro de 2000, que a sua vida se pautou! Era assim esta grande Alma! Por onde passava a todos cativava, quer pela sua maneira de ser quer pela sua cultura geral que enriquecia dia-a-dia e foi alimentando numa dimensão surpreendente. O seu espírito de humor também o caracterizava e, subtilmente, ele usava-o com prudência e inteligência! Não é por acaso que, passados uns longos onze anos, ele é lembrado com tanto carinho e tamanha admiração!

Parabéns ao amigo José Manuel Couto por este artigo de homenagem no início de mais um ano lectivo! Sentimo-nos muito gratos pela evocação do nosso Ente querido e sentimo-nos muito honrados com tudo o que ele foi, marcando gerações de jovens que ao longo de anos acompanhou e, que hoje, sabemos, o recordam com muita saudade”.

Confirma-se, assim, que, de facto, há palavras que provocam, chocam, magoam, ofendem, separam, inquietam… mas, felizmente, como se confirma, outras há que têm o inefável e incomensurável poder de adoçar, aproximar, vincular, encorajar, fazer reviver … e catapultar vidas, que se escrevem com as cores do presente, do futuro… e da saudade.

Um eterno bem-haja à Dª Maria Helena e aos seus filhos. Cerca de onze anos volvidos sobre a partida do Dr. Coelho de Moura, confirma-se que, como dizia Santo Agostinho, “Ninguém morre enquanto permanece vivo no coração de alguém!”.

José Manuel Couto  

Publicado no Jornal Audiência, em 17/11/2010

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“Impulsos do Coração” – Em memória do Dr. Coelho de Moura

Em início de novo ano escolar, não posso deixar de evocar e homenagear um ex-professor e eterno amigo: José Júlio Silva Coelho de Moura. Um verdadeiro Mestre. Daqueles, raros, que se cruzam connosco e marcam indelevelmente o nosso carácter, pelo seu saber, pela sua postura, pela maturidade humana, pela simpatia, pela constante partilha de experiências e vivências, pelos laços de amizade que são capazes de construir e que transcendem as próprias fronteiras da escola. O seu desaparecimento físico, em 5-01-2000, com apenas cinquenta e sete anos, não apagou em mim e em muitos dos que tiveram o privilégio de consigo privar, seus discípulos, as marcas de um Homem íntegro, feliz, apaixonado pela vida e pelas palavras, um pai, um amigo e conselheiro, um companheiro de verdade, poeta, pensador e contador de histórias. Como dizia um dos seus alunos, “um excepcional fazedor de sonhos”; ou uma colega, “um autêntico humanizador da vida”. Uma bênção.

Foi meu professor, no Colégio dos Carvalhos, onde leccionou durante quase duas décadas. Mais tarde, fui seu colega, na área da Língua Portuguesa e da Literatura Infanto-juvenil. Sempre trocámos livros, preocupações, ideias e orientações pedagógicas e didácticas. Recordo-o com profunda saudade, porque a minha vida é muito daquilo que em mim semeou, ao ponto de, sem disso eu próprio ter consciência, em determinada altura, ter marcado o meu percurso profissional. A sua contagiante paixão pela vida, pela língua e pela literatura, era a prova acabada de que a vida é feita das coisas mais simples mas, sobretudo, da qualidade das relações humanas que formos capazes de construir, no respeito, na verdade, na transparência e lealdade.

Recordando o professor Coelho de Moura, ecoam em mim palavras de Sebastião da Gama, que poderiam ser suas, porque fiel retrato deste mestre e pedagogo: “Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já me esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos” (in Diário)

Nos últimos dias de vida, hospitalizado, ia preenchendo o vazio das horas com alguns registos que partilho, fragmentos de um legado que conservo como um precioso tesouro:

Anestesiar é suspender a alma enquanto se conserta o corpo.

Operar baseia-se no princípio de que o corpo tem órgãos supranumerários que avariam só por serem dispensáveis.

Hospital é uma oficina onde se retiram peças, se encurtam passagens com as quais a vida não teria qualidade.

Curar-se não é tanto apoiar-se na química da medicina; é mais acreditar que se ganha saúde.

O gemido num hospital é o sinal de que o corpo não está bem com a alma.

Uma visita amiga ilude o tempo; a dor acentua-a”.

Obrigado, Professor-Mestre-Amigo-Colega. Obrigado pelo que continuas a ser em mim e em tantos dos teus alunos que ainda hoje te recordam com dor e saudade. As sementes que lançaste em nós continuam a germinar e a desabrochar em flores e frutos de humanidade. Regressaste a Viseu, tua terra natal, mas continuas a viver em muitos corações, sem fronteiras, em todas as áreas da vida social, artística, cultural e política.    

Fazem-nos falta professores e professoras assim. Sábios e Humanos Mestres e Educadores. Fazem-nos falta famílias e alunos que apreciem, reconheçam e valorizem aqueles que se lhes devotam incondicionalmente, com grande sentido de profissionalismo. Professores. Acima de tudo, Mestres, cuja vida gera novos sentidos e horizontes.

 

José Manuel Couto

 Publicado no Jornal Audiência de 29-09-2010


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