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O Meu primeiro dia de escola, há 81 anos

Aparentemente insólito, o título do presente artigo transporta-nos, como que por magia, para o primeiro dia de escola, na vida de uma criança, corria o ano de 1929. Esta “criança” tem, hoje, 88 saudáveis e perspicazes anos.

Margarida recorda-se de tudo, “como se fosse hoje”. Com uma frescura que os anos avivaram, conta na 1ª pessoa: “No dia 19 de Outubro, saí de casa, no lugar das Eiras, em Canelas, a caminho da escola, em Megide. Saí às 8.30 horas, para entrar ao toque da campainha, que era às 9 horas da manhã. Levava na mão uma saca com uma lousa, de certo material branco, creio que de esmalte. O meu pai fez-lhe um furinho no canto, por onde passou um fio com um esfregãozinho para a limpar. A escrita, na dita lousa, era com um lápis. Além disso, levava o livro da 1ª classe.

Entrei na sala, contente, mas um tanto apreensiva, preocupada com medo de não conseguir fazer aquilo que a senhora professora me mandasse. Éramos 45 alunas, uma parte da 3ª classe, outra da 1ª”. Lembra que, nesse dia, a professora traçou uma linha no quadro e sobre ela registou os algarismos de 1 a 10, solicitando às alunas da 1ª classe que copiassem o que estava no quadro e fossem enchendo a lousa com iguais exercícios. Mas… “Eu não consegui. Fiquei muito aflita e em silêncio, mas muito cheia de lágrimas”. Valeu-lhe a colega de carteira que, solidária e experiente, se apressou a deitar mão de uma série de analogias, permitindo à neófita “perceber os números” e, deste modo, resolver o referido exercício com sucesso. Feliz, recorda: “Disse-me ela: olha, o 1 é como um gancho da cesta com que o meu avô faz a vindima; o 2 é uma roda e um pau; o 3 duas meias rodas; o 4 uma cadeira; o 5 uma foucinha; o 6 uma roda e um pau; o 7 um pau; o 8 duas rodas, o 9 outra roda e um pau e, finalmente, o 10. Nunca me esqueci como fiquei triste e aflita e a felicidade com que resolvi o problema, e com que rapidez.

Depois fui ler uma página do livro, ainda soletrando, mas já conhecia as letras, que a minha mãe ia-mas ensinando em casa. Os algarismos é que eu não era capaz.

As aulas eram das 9 horas às 12 horas, com dez minutos de intervalo, e das 13 horas às 15 horas. No fim das aulas, cantávamos a tabuada, que ainda hoje sei de cor e salteada. Também tínhamos um quadro com uns arames e uns botões às cores, de madeira – o tradicional ábaco – para aprendermos a contar até cem. Cada arame tinha dez botões ou bolinhas.

Gostei muito de ter andado na escola. Acabei o exame de 2º grau, ou 4ª classe, a 15 de Julho de 1933. Sempre com a mesma professora, Dª Haidé Almeida Francês”.

Oitenta e um anos decorridos, com todo o tempo do mundo, depois de uma vida de trabalho, filhos criados e estabilizada a vida económica e social, Margarida regressou à “escola”, onde brilham as suas vivas e coloridas pétalas, lado-a-lado com cerca de sessenta outras “flores” que, apesar do desgaste do tempo, alimentam o caloroso jardim em que se tem convertido a “Academia Sénior da Sabedoria de Canelas”, a funcionar, com actividades diárias, da parte da tarde, na “Associação Desportiva e Cultural de Santa Isabel”, no lugar de Santa Isabel, em Canelas, sob a coordenação geral da criativa e dinâmica Madalena Vaz.

A oferta é diversificada: hidroginástica, ginástica, pilates, natação, dança, inglês, informática, canto coral, teatro, artes plásticas, percursos da História, comunicação, expressão oral e escrita.

O grupo conta, ainda, com o apoio de uma equipa multidisciplinar nas áreas da educação física, da medicina, da enfermagem, da fisioterapia, da psicologia, da terapia da fala e do nutricionismo.

Margarida é nome de flor. Uma entre muitas outras, para quem a idade se transformou em sabedoria e experiência a partilhar em clima de amizade, de afecto, de alegria e saudável vizinhança, com a certeza de que cada dia deve construído com qualidade e saudável energia. Um verdadeiro exemplo para as gerações mais novas! Afinal, como dizia Henri Frédéric Amiel, escritor, poeta e filósofo suíço, “Saber envelhecer é a grande sabedoria da vida”. Na “Academia Sénior da Sabedoria de Canelas” fervilham muitas vidas com histórias, que iremos recuperando e divulgando para memória presente e futura.

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência, em 27-10-2010

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“Impulsos do Coração” – Em memória do Dr. Coelho de Moura

Em início de novo ano escolar, não posso deixar de evocar e homenagear um ex-professor e eterno amigo: José Júlio Silva Coelho de Moura. Um verdadeiro Mestre. Daqueles, raros, que se cruzam connosco e marcam indelevelmente o nosso carácter, pelo seu saber, pela sua postura, pela maturidade humana, pela simpatia, pela constante partilha de experiências e vivências, pelos laços de amizade que são capazes de construir e que transcendem as próprias fronteiras da escola. O seu desaparecimento físico, em 5-01-2000, com apenas cinquenta e sete anos, não apagou em mim e em muitos dos que tiveram o privilégio de consigo privar, seus discípulos, as marcas de um Homem íntegro, feliz, apaixonado pela vida e pelas palavras, um pai, um amigo e conselheiro, um companheiro de verdade, poeta, pensador e contador de histórias. Como dizia um dos seus alunos, “um excepcional fazedor de sonhos”; ou uma colega, “um autêntico humanizador da vida”. Uma bênção.

Foi meu professor, no Colégio dos Carvalhos, onde leccionou durante quase duas décadas. Mais tarde, fui seu colega, na área da Língua Portuguesa e da Literatura Infanto-juvenil. Sempre trocámos livros, preocupações, ideias e orientações pedagógicas e didácticas. Recordo-o com profunda saudade, porque a minha vida é muito daquilo que em mim semeou, ao ponto de, sem disso eu próprio ter consciência, em determinada altura, ter marcado o meu percurso profissional. A sua contagiante paixão pela vida, pela língua e pela literatura, era a prova acabada de que a vida é feita das coisas mais simples mas, sobretudo, da qualidade das relações humanas que formos capazes de construir, no respeito, na verdade, na transparência e lealdade.

Recordando o professor Coelho de Moura, ecoam em mim palavras de Sebastião da Gama, que poderiam ser suas, porque fiel retrato deste mestre e pedagogo: “Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já me esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos” (in Diário)

Nos últimos dias de vida, hospitalizado, ia preenchendo o vazio das horas com alguns registos que partilho, fragmentos de um legado que conservo como um precioso tesouro:

Anestesiar é suspender a alma enquanto se conserta o corpo.

Operar baseia-se no princípio de que o corpo tem órgãos supranumerários que avariam só por serem dispensáveis.

Hospital é uma oficina onde se retiram peças, se encurtam passagens com as quais a vida não teria qualidade.

Curar-se não é tanto apoiar-se na química da medicina; é mais acreditar que se ganha saúde.

O gemido num hospital é o sinal de que o corpo não está bem com a alma.

Uma visita amiga ilude o tempo; a dor acentua-a”.

Obrigado, Professor-Mestre-Amigo-Colega. Obrigado pelo que continuas a ser em mim e em tantos dos teus alunos que ainda hoje te recordam com dor e saudade. As sementes que lançaste em nós continuam a germinar e a desabrochar em flores e frutos de humanidade. Regressaste a Viseu, tua terra natal, mas continuas a viver em muitos corações, sem fronteiras, em todas as áreas da vida social, artística, cultural e política.    

Fazem-nos falta professores e professoras assim. Sábios e Humanos Mestres e Educadores. Fazem-nos falta famílias e alunos que apreciem, reconheçam e valorizem aqueles que se lhes devotam incondicionalmente, com grande sentido de profissionalismo. Professores. Acima de tudo, Mestres, cuja vida gera novos sentidos e horizontes.

 

José Manuel Couto

 Publicado no Jornal Audiência de 29-09-2010

Famílias Ciganas “de Grijó” são notícia no JN

Segundo notícia do JN do dia 29 de Setembro de 2010, a construção da VL5 vai correr com famílias ciganas, sem alternativa. De acordo com Natacha Palma, autora da notícia, “Hoje, são 11 as famílias que vivem no acampamento da Feiteira, encurraladas entre a Rua das Casas Queimadas e a rede protecção da A1. Vivem numa beira de estrada, com luz puxada de um poste e água cedida a balde por uma empresa vizinha. O mato serve de quarto de banho” Acrescente-se que, em terras grijoenses, há mais três acampamentos ilegais à espera de solução.

In JN de 29/09/2010. Autoria: Fernando Timóteo/Global Imagens

Foto: Fernando Timóteo/Global Imagens, in JN de 29-09-2010

Apesar do prometido desmantelamento do acampamento da Feiteira, a verdade é que, refere-se, “Ainda assim, é com afinco que Adolfo Maia e outros homens da comunidade constroem uma casa para o mais recente casal da comunidade”. Ele de 16 anos, ela de 15 que, “Agora têm de ter o seu próprio tecto”.

Comentando este episódio, nas páginas do JN on-line, alguém refere: “(…) Notem: já tem licença de habitabilidade, todas as vistorias, gás, Edp e águas? Está inscrita nas finanças com respectiva caderneta predial, conservatória do registo predial? S/empréstimo bancário, foi tudo pago no acto: receberam o arquitecto, o engenheiro da obra e o construtor civil que tem alvará na câmara. Tudo nos trinques! Está isenta de IMI nos próximos dez anos a contar da presente data. O casal vai trocar o BI, por c.c., para terem data de nascimento anterior a 1994, e registarem simultaneamente o casamento (…)”.

Um outro leitor, identificado por “ManuelM”, acrescenta: “Como se admite que numa cidade que se diz “europeia” e avançada, ainda existam bairros de lata, com electricidade roubada de um poste e a colocar em risco a salubridade pública? Isto aqui não tem que ver com ciganos… Então não há PSP, GNR nem Polícia Municipal em Gaia? Não há fiscais da construção? Não há departamento de salubridade? Não há habitação social? (…)”

O problema é de tal modo relevante que, às 16.15 horas, os dados estatísticos da procura da notícia no JN On-line eram os seguintes: 6068 visualizações; 288 comentários; 5 envios e 16 impressões. Palavras para quê?

Ver artigo completo em: http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Porto&Concelho=Vila%20Nova%20de%20Gaia&Option=Interior&content_id=1673466

José Manuel Couto

AMBIENTE INSÓLITO na “Assembleia de Freguesia” de Grijó

Estive lá, mais uma vez, no passado dia 17 de Setembro. Apenas cerca de meia hora e já depois da meia-noite. Vi mais do mesmo, cada vez pior. Uma Assembleia que não é digna desse nome. Mas não sei que nome lhe haveria de atribuir. Marasmo, confusão, incumprimentos legais/regimentares vários, um caos. Troca de acusações, provocações e impropérios, linguagem grosseira e insultuosa, na boca de um Presidente de Junta e de consórcios seus, que nem em locais onde tal seria normal acontecer. Reis e senhores contra tudo e contra todos. Indisciplina total. Um clima de ressabiamento e ameaçadora vingança, sempre com os olhos no passado, em vez do presente e do futuro. Apesar do esforço de rigor, seriedade e profissionalismo na abordagem das diferentes matérias e documentos, nomeadamente por parte dos elementos do PS, e de escassos outros, não se consegue moralizar este órgão. Uma bancada afecta ao executivo amorfa, impreparada, de meros e meras figurantes, que ali caíram por acaso. Prepararam-se para defender os interesses da Freguesia? Não! Estudaram a documentação em análise? Não? Intervêm criticamente? Não! Limitam-se a esboçar rasgados sorrisos, às vezes gargalhadas, face aos disparates de alguns. Um verdadeiro circo. Uma espécie de festa a que até acorre algum público, desejoso de ver a banda a tocar no coreto, mas muito desafinada. E a essa hora o povo dorme, numa letargia que conduz a consequências catastróficas para a nossa Vila. Um desgoverno total, com membros do executivo, acabados de chegar, comodamente instalados, sem dados para apresentar com rigor, sem perceberem nada de nada, espaldados, apenas, pelo órgão que integram, em abstracto, no maior laxismo. Governar um território exige preparação técnica e humana. Exige, sobretudo, sentido de ver e civismo, grande capacidade de altruísmo. Uma Junta de Freguesia não pode ser um brinquedo na mão de crianças adultas. Fala-se da Assembleia de Freguesia por todo o lado, em Vila Nova de Gaia. Um cenário insólito. Muito triste.

Por mais participações para o tribunal administrativo do Porto, para a Inspecção Geral da Administração Local (IGAL) e outros departamentos, tudo se mantém numa aparente e anormal impunidade. E, entretanto, vamos ficando cada vez mais empobrecidos e esquecidos, no que respeita a Saúde, estradas, sinalização, limpeza e asseio de espaços públicos, lazer e bem-estar, etc. Em todas as frentes. Reafirmo a convicção de que longos anos de governo cansam, desgastam, mas deveriam ter promovido aprendizagem e progressão, o que não acontece. Esses longos anos geraram, sem retorno, acomodação, laxismo, um certo auto-endeusamento, uma autoconfiança desmedida e vazia de sentido, impunidade. Que mal vamos nós numa terra sem governo. Pelo menos ao nível da Assembleia de Freguesia, ainda se está a tempo de arrepiar caminho. Cumpra-se o regimento, quanto à gestão de tempos, moderem-se intervenções, exija-se de um executivo que se mantenha no seu papel legal, lembrando que a Assembleia é dos que para ela fora democraticamente eleitos e que o executivo está ali, órgão diferente, apenas para esclarecer, prestar informações e usar da palavra quando para isso for superiormente autorizado. Não intervir a torto e a direito, “mandar bocas”, interromper membros da assembleia no uso da palavra, desautorizar a Presidente da Assembleia, desrespeitar deliberações… numa catadupa de atropelos de gente impreparada e desrespeitosa da coisa pública. E, entretanto, o povo dorme. Por medo de retaliações ou por comodismo? Basta-lhe encenações teatrais e o aparente porreirismo presidencial, disseminado sem limites de café em café e nas esquinas na freguesia, sempre de olhos fechados, porque não vê buracos, paralelos levantados, árvores caídas, lixo amontoado…

José Manuel Couto

Texto publicado em http://www.vozdegrijo.com/

A PROPÓSITO DO ATENDIMENTO NO HOSPITAL SANTOS SILVA

Por motivos de ordem familiar, no último mês, vi-me obrigado a frequentar regularmente o Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho, EPE – Unidade I, isto é, o popularmente denominado “Santos Silva”.

Não obstante as razões que ali me levaram e a precariedade das instalações, de um modo geral, registei com muito agrado o tratamento dado aos pacientes/utentes, quer pelas equipas médicas quer de enfermagem. Pude observar, nomeadamente em contexto de serviço de urgência, que, apesar da enorme afluência de pacientes, ali reina um clima de trabalho sério, de verdadeira equipa. Vi e convivi, como cidadão anónimo e comum, com equipas jovens, simpáticas, competentes, embora monitorizadas por profissionais mais velhos e experientes.

Em tempo de espera, tive oportunidade de apreciar aprofundadamente o boletim informativo do Hospital – “Mais Informação, Mais Saúde” –, do mês de Agosto do corrente ano, onde, além da divulgação de trabalhos e resultados clínicos de sucesso, bem como de cuidados a ter ao nível da prevenção da doença, o Padre Albino Reis, responsável pelo Gabinete de Humanização, alertava para a necessidade de humanizar o hospital, tarefa de todos, não apenas dos utentes. Nas suas palavras (p. 2), “Um hospital humanizado deve sê-lo na sua estrutura física, tecnológica, humana e administrativa, valorizando o respeito pela dignidade da pessoa – o paciente, o familiar e o profissional – garantindo um trabalho e um atendimento de qualidade”, naquilo de designa de um “projecto de co-responsabilidade”.

Sem arrogância e prepotência, com humildade e rigor científico, espera-se, de facto, dos profissionais do hospital um atendimento progressivamente humano e humanizador, ao contrário do que acontecia, porventura, em tempos não muito longínquos. Os jovens médicos e as jovens médicas que ali trabalham parecem estar no bom caminho, isto é, no caminho da construção de um curriculum centrado nas questões técnicas das competências desenvolvidas ao nível dos cuidados de saúde, mas igualmente na qualidade das relações humanas, sobretudo no concerne ao elo mais fraco, o paciente. Salvo raras excepções, pelo que me apercebi de conversas circunstanciais, também os pacientes parecem estar cada vez mais conscientes desta realidade. Talvez continue a faltar, porém, uma formação mais global dos cidadãos para a importância das relações humanas, assente num clima de respeitabilidade e de diálogo, neste particular em ambiente hospitalar.

Uma palavra final de apreço aos cidadãos e cidadãs que integram a “Liga dos Amigos do Centro Hospitalar de Gaia”. O seu serviço, voluntário, contribui decisivamente para a criação e a preservação deste espírito humanizador do hospital. Um serviço inestimável, uma ponte imprescindível entre o paciente e os serviços técnicos de saúde.

Independentemente de outras opiniões e experiências, eventualmente não tão bem sucedidas, tenho a certeza de que muitos utentes deste hospital partilham o sentimento que aqui expresso.

Ah! Espero que o novo hospital seja construído o mais brevemente possível, a fim de que as condições de trabalho sejam outras, do ponto de vista técnico e logístico, propiciando a crescente consolidação da dita humanização do ambiente hospitalar. Desejo, sinceramente, que este clima de humanização comece logo na criação de espaços condignos ao nível da recepção dos pacientes, na triagem dos problemas de saúde, na partilha/divulgação de informação e nas próprias salas-de-espera, para pacientes e acompanhantes. Creio que, também neste aspecto, Gaia poderá converter-se num exemplo à escala nacional e europeia.

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência em 25/08/2010

Deus nos livre!

Ontem foi dia de “Grande entrevista”, na RTP1. Convidado, o Dr. Domingos Duarte Lima, advogado e ex-dirigente do PSD. Acima de tudo, figura pública, ela própria alvo de profunda transformação após grave problema de saúde, na sequência do qual acabaria por fundar a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL), com site disponível em http://www.apcl.pt/PresentationLayer/home_00.aspx.

Claramente constrangido e incomodado, que o caso não é para menos, Duarte Lima deixou claro, apesar de sucessivas escusas em abordar directamente determinadas questões, porque obrigado ao “segredo profissional”, que o seu envolvimento no denominado caso Feteira, designadamente no homicídio de Rosalina Ribeiro, companheira do milionário Lúcio Tomé Feteira, se fica a dever a uma “montagem vil e tenebrosa”. Questionado sobre quem estará por trás deste projecto macabro, limitou-se a um eloquente silêncio, por entre um expressivo olhar de quem sabe exactamente quem está a acossá-lo, a denegrir a sua imagem e a prejudicá-lo, do ponto de vista pessoal, profissional, familiar, certamente, e social. Está consciente, certamente, de a quem pertence a “mão misteriosa” que tem lançado suspeitas e informações caluniosas.

Sem me colocar do lado de quem quer que seja, simples cidadão comum, mas com opinião, não é justo, diria, não é humanamente aceitável que se levantem suspeições criminosas sobre alguém, sem fundamentos factuais, em resultado de perícias judiciais. É muito fácil acusar, arruinando, assim, a imagem de alguém. Para alguns, é muito fácil, ainda, publicitar tal acusação à escala global, através dos meios de comunicação social que, sem se comprometerem, lá vão lançando atoardas a torto e a direito. Deveriam indicar fontes, identificar o ou os autores de tais suspeitas, no sentido de clarificar e atribuir responsabilidades.

Não sei que ligação tinha Duarte Lima à família Feteira. Limitei-me a ouvir a sua tese. Mas a verdade é que estamos fartos de ditos e mais ditos, à margem da investigação judicial, que bem poderá ter já uma explicação clara para o homicídio de Rosalina Ribeiro. Pena que, a ser verdade, o móbil possa ter sido a incalculável fortuna/herança em jogo. Estou certo de que o envolvimento de Duarte Lima, ele próprio advogado, pode contribuir não apenas para a mediatização do caso, mas, também, para a descoberta dos reais autores de tal homicídio. Duarte Lima estará interessado, certamente, em que o caso não caia no esquecimento e se apurem factos e consequências. Mas que dói, dói, não tenho dúvidas. Que o caso é muito sério. Provando-se a sua impunidade, deve provar-se, igualmente, quem está por trás desta delação desumana.

Como cidadão, espero que não aconteça o mesmo que tem sucedido relativamente ao processo “Casa Pia”, que se arrasta há penosos longos anos, para os envolvidos e para a opinião pública. Estranho caso/processo este, talvez à espera da prescrição, graças aos sucessivos malabarismos jurídicos.  Mas o que a lei permite para uns, para outros não, sendo célere a justiça, mesmo em casos semelhantes, desde que estejam envolvidas figuras anónimas, cidadãos comuns. A culpa ou a inocência dos suspeitos de prática de pedofilia, envolvendo crianças e jovens da Casa Pia de Lisboa, deve ser declarada quanto antes, para se pôr cobro, assim, a um processo obscuro para a opinião pública.

Quanto a Duarte Lima, que não conheço pessoalmente, espero que envide todos os esforços, mesmo que não solicitados pelas autoridades, para se encontrar a verdade.

Deus nos livre!

A saúde mental dos portugueses

Pela acutilância, clarividência e assertividade, publico um texto de Pedro Afonso, médico psiquiatra. Dá que pensar. Por isso teomei a liberdade de sublinhar a cor ideias para reflexão.

“Recentemente ficou a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida. Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios. Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque nos últimos quinze anos o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos. Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos. Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da segurança social. Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria. Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais. E hesito prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante estes rostos que me visitam diariamente”. In Público, 2010.06.21


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