Archive for the 'Religião' Category

Eleições legislativas – Resultados em Gaia

De acordo com os resultados avançados pela GaiaFM, em Gaia seguiu-se a tendência nacional.

PSD – 36,92% (Grijó: 2484 votos expressos)

PS – 31,67%     (Grijó: 1734 votos expressos)

CDS – 10,11%  (Grijó: 573 votos expressos)

CDU – 7,36%  (Grijó: 326 votos expressos)

BE – 6,10%      (Grijó: 315 votos expressos)

PCTP/MRPP – 1,02%

PAN – 1,01%

(os restantes partidos tiveram menos de 1%)

O PSD ganhou em 17 freguesias (Arcozelo, Canelas, Crestuma, Grijó, Gulpilhares, Lever, Madalena, Mafamude, Perozinho, sandim, São Félix da Marinha, Seixezelo, Sermonde, Serzedo, Valadares, Santa Marinha e Vilar do Paraíso) e o PS ganhou nas restantes 7 Afurada, Canidelo, Avintes, Olveira do Douro, Vilar do Andorinho, Olival, Pedroso)

Estes resultados revelam a maturidade decisória dos eleitores que fazem o seu voto flutuar em função daquilo que está em jogo em cada momento. De assinalar que, em Gaia, não houve qualquer incidente a registar, pelo que primaram os princípios mais elementares da democracia.

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Grupo do Loureiro (Grijó-V. N. Gaia) completa 37 anos de Vida

O Grupo Recreativo e Cultural do Loureiro, com sede na localidade grijoense, V. N. Gaia, com o mesmo nome, acaba de completar 37 anos de vida. Criado por um grupo de jovens, em vésperas de Abril de 1974, este grupo começou por acolher adolescentes e garantir uma formação humana e espiritual de qualidade, por se converter numa espécie de grupo de encontro, de partilha e desenvolvimento holístico desses mesmos adolescentes, provenientes um pouco de toda a freguesia, com base na experiência e na mestria dos mais velhos, jovens fundadores do grupo.

Depois de algumas peripécias, anos mais tarde, este grupo acabaria por se dividir: uma parte reunia nas vendas de Grijó e, depois em Aldeia Nova; outra no Loureiro. Decorridos 37 anos, mantém-se, apenas, o núcleo originário, que, desde há anos diversificou a sua actividade. Se, no passado, se promoviam reuniões de partilha, música e teatro, hoje o grupo estende a sua actividade ao canto tradicional, às Janeiras, à animação litúrgica, a reuniões de formação espiritual e a actos de solidariedade. Aqui se mantém, ainda, a “Ana Fernanda” Neves, desde as mais remotas origens, membro histórico fundamental na preservação da garantia de continuidade e da identidade do próprio grupo, hoje com órgãos sociais legalmente constituídos.

Ao fim de 37 anos, mantêm-se os laços de amizade originais, entre a maioria daqueles e daquelas que por aqui foram passando e que encontram neste grupo um dos momentos altos das suas vidas, nalguns casos determinante em termos de opções conjugais, profissionais e outras.

Trata-se de um grupo que acolhe, na actualidade, famílias inteiras, desde a mais tenra idade até à velhice: um grupo de cariz familiar, que sabe acolher, que sabe ser solidário e promover a Vida, a todos os níveis.

No passado dia 5 de Março, teve lugar o tradicional jantar-convívio de aniversário. Estavam presentes cerca de 60 pessoas, entre membros do grupo e convidados. Entre estes, encontravam-se presidentes ou representantes dos organismos políticos, sociais e culturais da freguesia. O clima, como sempre, foi de boa-disposição e de festa, em família. Um grupo onde todos se sentem bem, que todos apreciam e estimam. Um grupo que precisa de continuar a ser acarinhado e apoiado por todos os grijoenses, seguindo o seu próprio rumo, longe da subjugação e do servilismo político a que não têm resistido outros grupos da freguesia, a fim de não sofrerem qualquer tipo de retaliação, de, pelo contrário, obterem alguns pseudo subsídios e a simpatia da autarquia local, na sua génese insensível às problemáticas transversais ao reconhecimento, à logística e à sobrevivência deste tipo de grupos, fundamentais para a criação de laços sociais e identitários entre um povo que alguns responsáveis mais procuram dividir que unir.

José Manuel Couto

Da Visita Pascal

Vila Nova de Gaia é, quer se queira, quer não, um Concelho ruralizado e paroquializado. Quer isto dizer que, apesar das assimetrias que opõem o centro urbano e um litoral aparentemente desenvolvido, em termos de infra-estruturas viárias e de parque habitacional, a uma extensa interioridade carenciada de quase tudo, prevalece, ainda, uma grande proximidade entre as populações autóctones, que teimam em desafiar qualquer tentativa de globalização e de descaracterização da sua identidade, aos mais diversos níveis.

Uma das tradições desde há muito arraigadas no Concelho, como, aliás, um pouco por todo o Norte do País, e que em muito contribui para a preservação da referida identidade, é a Visita Pascal. Nascida na Idade Média e perpetuada, aqui ou ali, com uma certa dose de inovação e criatividade. Sobretudo para atrair as populações mais jovens. Levada por grupos de homens, ou por equipas mistas, hoje emFoto disponível em: http://2.bp.blogspot.com/_CFXZCsdOH6I/R-u7Rn-O92I/AAAAAAAAAUY/WwT7wvYV3bU/s400/IMG_0618.JPG crescente número, no seio das quais as mulheres se afirmam justamente como mensageiras da ressurreição de Cristo, à semelhança de Maria Madalena, o espírito é sempre o mesmo: anunciar a Boa-Nova de que Cristo ressuscitou e quer habitar em cada casa, em cada coração. Um convite à festa, à alegria, à Vida e à comunhão, lembrando que o todos estamos radicalmente unidos por laços de fraternidade.

Em registo de breve apontamento sobre uma tradição apaixonante, sobre cuja génese e evolução desenvolvi, há alguns anos, um aprofundado estudo, relevo um documento datado de 15 de Agosto de 1764, inscrito em “Alguns usos e costumes da Freguesia de Santa Maria de Gulpilhares – Separata de Douro Litoral, III-IV, 5ª série, de 1953) –, onde pode ler-se que “(…) os fregueses são obrigados a ter a porta aberta, casa varrida, e a ofertarem o que bem lhes parecer segundo a sua generosidade: porém, os lavradores mais honrados sempre ofertam um pão leve, um prato cheio de ovos, uma regueifa e pão de Valongo e uma galinha”. Mais tarde, em 1909, atestando a renovação desta prática, escreve o Padre Cid, abade de Vilar do Paraíso, que sendo o folar em dinheiro, “(…) é uma moeda de prata colocada sobre uma laranja ou uma maçã e está posta numa salva de prata ou prato de louça”. Assim se fazia, lembro, em casa do meu avô paterno, de saudosa memória.

Num tempo de extrema pobreza e de alguma falta de higiene doméstica, mas de uma simplicidade genuína, todos se preocupavam com o folar e com o exigido asseio, naquilo que se instituiu como “a limpeza da Páscoa”.

Os tempos mudaram. Hoje, regra geral, as casas estão naturalmente asseadas. Prima o conforto e o bem-estar. Talvez falte, isso sim, a genuidade originária, o espírito de solidariedade, de partilha e comunhão, o espírito que boa-vizinhança que, em muitas localidades, levava outrora vizinhos desavindos, ou não, a, neste dia, esbaterem todo o tipo de conflitos e a visitarem-se mutuante, engrossando o grupo compassante, convivendo em salutar alegria, comendo e bebendo em prol da amizade reatada ou consolidada.

A Páscoa é mesmo isto. É sobretudo isto. A casa interior arejada e asseada. Um coração aberto ao Outro, rostos felizes, espelhos da fé em Cristo Ressuscitado.

Vila Nova de Gaia é, quer se queira, quer não, um Concelho ruralizado e paroquializado. Basta percorrer as ruas do interior do Concelho em Dia de Páscoa, para se perceber do imperioso que é preservar criativamente uma tradição que une, alenta e projecta para a dimensão da fé, em primeiro plano e, consequentemente, para a comunhão, a partilha e a felicidade, esse verdadeiro folar que todos almejamos. Em Vila Nova de Gaia, a visita Pascal ainda é, na generalidade, uma extraordinária marca identitária a defender e potenciar. A concluir, “Páscoa na Aldeia” do amarantino Teixeira de Pascoaes (1877-1952):

 

Minha aldeia na Páscoa…
Infância, mês de Abril!
Manhã primaveril!
A velha igreja.
Entre as árvores alveja,
Alegre e rumorosa
De povo, luzes, flores…
E, na penumbra dos altares cor-de-rosa .
Rasgados pelo sol os negros véus.
Parece até sorrir a Virgem-Mãe das Dores.
Ressurreição de Deus! (…)
Em pleno azul, erguida
Entre a verde folhagem das uveiras.
Rebrilha a cruz de prata florescida…
Na igreja antiga a rir seu branco riso de cal.
Ébrias de cor, tremulam as bandeiras…
Vede! Jesus lá vai, ao sol de Portugal!
Ei-lo que entra contente nos casais;
E, com amor, visita as rústicas choupanas.
É ele, esse que trouxe aos míseros mortais
As grandes alegrias sobre-humanas.
Lá vai, lá vai, por íngremes caminhos!
Linda manhã, canções de passarinhos!
A campainha toca: Aleluia! Aleluia! (…)
Velhos trabalhadores, por quem sofreu Jesus.
E mães, acalentando os filhos no regaço.
Esperam o COMPASSO…
E, ajoelhando com séria devoção.
Beijam os pés da Cruz.

José Manuel Couto

Publicado no Jornal “Audiência” no dia 15 de Abril 2009

HISTÓRIA DE NATAL

Amante das tradições em que se enraíza a nossa identidade pessoal e comunitária, fui presença regular, em tempos, num programa de uma rádio sedeada em Espinho. Da interacção estabelecida com os ouvintes, sobre questões de etnografia, foram-me relatadas, por alturas do Natal, muitas histórias e memórias associadas à quadra. Pelo exemplo da solidariedade e da fraternidade que sempre comovem alguns corações, de uma forma especial nesta altura tão simbólica e distinta, não posso deixar de partilhar aquela que me foi contada pelo também gaiense Joaquim Rosário, na primeira pessoa:

«Esta história passou-se nos anos sessenta, tinha eu nove anos de idade, numa noite de véspera de Natal. O meu irmão mais velho, que era também meu padrinho, tinha regressado de Angola, havia pouco tempo. Como, nos últimos anos, os natais tinham sido um pouco tristes, devido à sua ausência, tudo se conjugava para que este fosse um pouco mais alegre.

Recordo-me perfeitamente de não haver energia eléctrica, devido à queda de umas árvores sobre os fios de electricidade, em consequência do mau tempo que fizera uns dias antes. Daí a ceia estar a ser preparada à luz de um candeeiro a petróleo, o que deixava no ar um cheiro desagradável.

Com todo este aparato, e ao redor da lareira, a família ultimava os preparativos para a grande noite: a minha mãe e as minhas irmãs, mais envolvidas na caldeirada, nas rabanadas, nos “bilharacos” e na aletria…; os homens, com outros afazeres, esperavam ansiosamente todas aquelas delícias.

Tinha caído a noite e a família estava toda reunida. Eis a hora ideal para se rezar o Terço, coisa que não se dispensava todas as noites antes da ceia.

Foi então que, para surpresa de todos, o meu pai me disse:

– Ó rapaz, vai com a tua irmã mais nova a casa da “Sr.ª Ana do Branco” e, se ela estiver em casa, que venha consoar connosco!

A Sr.ª Ana era uma vizinha com mais de setenta anos. Vivia sozinha. Tinha dois filhos, mas ambos estavam emigrados em França. Para sobreviver, a Sr.ª Ana dedicava-se à apanha e seca de plantas que vendia a ervanários que por ali passavam com regularidade.

Creio que também a senhora ficou um pouco surpreendida com a nossa proposta… Mas, depois de alguma hesitação, lá se decidiu a vir connosco.

Rezamos então o Terço em conjunto, antes de nos sentarmos para consoar, já com luz eléctrica, pois tinha acabado de voltar, o que nos trouxe redobrada alegria nessa noite.

Escusado será dizer que passamos uma das mais agradáveis noites de Natal, com histórias contadas por uma velhinha que tinha um dom muito especial para as contar, e o meu irmão recordou, com alguma mágoa, os últimos natais passados em terras ultramarinas.

Passaram já mais de quarenta anos… Porque as circunstâncias da vida não permitiram que passássemos muitos mais natais juntos, a verdade é que nunca mais esqueci, e dificilmente esquecerei, esta grande noite de Natal».

Em tempos de profundas crises, de que sobressaem a económica e a moral, não faltarão entre nós, certamente, tantos e tantos gestos de afecto, reais histórias e memórias de Amor, a lembrar que não há coração que resista ao espírito de Natal.

 José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência, no dia 23/12/2009

ESCOLA E.B. 2.3 DE GRIJÓ DIVULGA A OBRA DE JÚLIO DINIS

Integrado do Projecto «Memórias do Mosteiro de Grijó», realizou-se, no passado dia 17 de Outubro, em Grijó, a I Marcha Nocturna Dinisiana. Este foi o nome escolhido pelo grupo dinamizador (os professores João Sousa, Eduarda Sousa, Margarida Fortuna, Elisa Tavares e Isabel Ribeiro) pelo facto desta caminhada passar por locais associados à obra do escritor Júlio Dinis. Com este evento, o grupo de docentes do Agrupamento Vertical de Escolas Júlio Dinis pretendeu homenagear o patrono destas escolas e relembrar a sua obra, nomeadamente «A Morgadinha dos Canaviais». Marcha dinisiana

Neste evento participaram mais de 400 pessoas e cerca de 50 figurantes, entre alunos, professores e funcionários. Actores e figurantes apareceram elegantemente vestidos com trajes inspirados na moda do séc. XIX e trouxeram um colorido às ruas da Vila de Grijó.

Ao longo do percurso, com início na Quinta de Alvapenha, os participantes foram brindados com representações dos alunos do Clube de Teatro da Escola E.B. 2,3 de Grijó, orientados pela professora Conceição Oliveira que, de forma memorável, apresentaram cenas da obra mencionada.

Sempre acompanhados pelas personagens principais da obra «A Morgadinha dos Canaviais», figurantes e demais participantes seguiram em direcção à Quinta dos Canaviais. Henrique de Souselas e sua tia Doroteia convidaram todos a ouvir a declamação de 2 poemas de Júlio Dinis pela professora Rosa Rocha, que se encontrava no alto da janela.

Numa caminhada de cerca de 3 Kms houve, ainda, a oportunidade de assistir a um excerto do filme «A Morgadinha dos Canaviais», realizado em 1949 por Caetano Bonucci, no espaço exterior da Escola E.B. 2,3 de Grijó.Marcha dinisiana

Chegados à alameda do Mosteiro, aguardava-os a Morgadinha que, depois de se encontrar com Henrique de Souselas, convidou a assistência a visitar a exposição sobre Júlio Dinis na Sala do Capítulo do Mosteiro de Grijó e a assistir ao lançamento do CD interactivo sobre o I Encontro Dinisiano. Nos claustros, 3 telas projectavam actividades desta Escola, realizadas no âmbito do referido Encontro.

No entender da organização, este foi um evento cultural que envolveu toda a comunidade escolar e que recebeu uma adesão enorme e inesperada por parte da comunidade local. O grupo de docentes sente que a recepção tão positiva só pode ter como resposta uma nova edição desta Marcha Dinisiana no o próximo ano lectivo com algumas novidades, nomeadamente com mais figurantes e representações de novas cenas.

Se um dos objectivos era relembrar o escritor Júlio Dinis, não menos importante era a divulgação das actividades que o grupo pretende levar a cabo nos próximos tempos.

Assim, está a ser organizada uma Reconstituição Histórica no Mosteiro de S. Salvador de Grijó, prevista para Maio de 2010, bem como a apresentação de uma peça de teatro inédita sobre a sua história.

Nesse evento, que está a ser preparada com todo o rigor histórico, pretende-se a reconstituição da vida monacal do Mosteiro de Grijó, com especial destaque para a Botica, o Scriptorium e a Sala do Capítulo. A comunidade escolar e local será convidada a entrar nos espaços do nosso Mosteiro e a descobrir a vida quotidiana dos monges regrantes de Santo Agostinho.Marcha dinisiana3

A peça de teatro, da autoria da professora Conceição Oliveira, e com a revisão histórica do professor João Sousa, apresentará, de forma original, a vivência dos monges do Mosteiro de Grijó. Mais uma vez, a representação estará a cargo do Clube de Teatro da Escola E.B. 2,3 de Grijó.

Como professores que se orgulham de o ser, o grupo coordenador não esquece a vertente pedagógica e, como tal, está a preparar, igualmente, uma maleta pedagógica com materiais adaptados aos diferentes níveis de ensino, cujo cerne será sempre o Mosteiro de S. Salvador de Grijó.

O grupo de docentes do Projecto «Memórias do Mosteiro de Grijó» considera que este é um tema que não se esgota e está já a pensar não só na reedição da caminhada Dinisiana, mas também da própria reconstituição histórica. No futuro, pensam ser, igualmente, possível a organização de um Encontro com exposições e palestras sobre a temática em estudo proferidas por especialistas, professores, alunos e membros da comunidade local.

Para divulgação destas e de outras actividades foi criado um blogue com informação actualizada sobre o projecto «Memórias do Mosteiro de Grijó» e cujo endereço fica aqui registado (http://memoriasmosteirogrijo.blogspot.com).

 Prof.ª Eduarda Sousa

Publicado no Jornal Audiência, no dia 28 de Outubro de 2009

A PROPÓSITO DO DIA DE SANTO ANTÓNIO

 

 

Fonte: http://homepage.ntu.edu.tw/~complex/images/ch06f06.jpg

No dia 13 de Junho de 1654, há precisamente 355 anos, o memorável P.e António Vieira pregava em S. Luís do Maranhão, no Brasil, um dos seus mais notáveis sermões: o “Sermão de Santo António aos Peixes”.

Homem de palavra lúcida, engenhosa, eloquente e sedutora, António Vieira, missionário e exímio pregador, ocupará grande parte dos dias da sua longa vida na defesa dos direitos humanos. Não poupa a Inquisição, pela cruel perseguição dos Cristãos-Novos; não poupa as forças estrangeiras que ameaçam usurpar os nossos territórios ultramarinos; não poupa os desumanos e egoístas colonos que, pela força das armas, procuram subjugar os pobres índios de S. Luís do Maranhão.  

Disso se ocupa de forma absolutamente extraordinária no Sermão de Santo antonio_com_peixesAntónio aos peixes. Recuperando as palavras de Santo António, num estilo forte, erudito, mordaz e contundente, o ilustre orador alerta a sociedade de então para a desumanidade da corrupção instalada, lembrando, para dentro e para fora do meio religioso, que todos somos chamados a ser “sal na terra”. E ser sal na terra é tudo fazer para impedir e combater a corrupção.

O que diria o P.e António Vieira se vivesse hoje, quando a causa da sua irada retórica se generalizou e se constituiu a pedra angular da sociedade, aos mais variados níveis e sectores!? Usaria o púlpito, certamente, não para esmolar votos, mas para, de forma acutilante, na observação dos princípios mais elementares da caridade cristã, malhar a torto e a direito, sem medo, no estrito cumprimento dos bíblicos preceitos da liberdade, justiça e responsabilidade. 

Como no seu tempo, “os peixes graúdos” continuam a comer os “pequenos”. Tal como refere, se um peixe graúdo se alimenta de comer muitos pequenos, bastava um daqueles para alimentar muitos destes. Causas desajustadas e contraditórias, consequências lamentáveis. Como na selva, predomina a lei da irracionalidade e do mais forte.

Como no seu tempo, entre tantas outras nocivas espécies, grassam e multiplicam-se os “roncadores”, os “voadores”, os “pegadores” e os “polvos”. Isto é, os orgulhosos, os malévolos ambiciosos, os parasitas e os traidores. Basta olharmos à nossa volta e identificá-los-emos à primeira, sem grande esforço. Não apenas, mas sobretudo, na vida política, nos centros de decisão. Ao abrigo de legais competências, superiormente atribuídas, continuam a colonizar, a fomentar… uma sociedade cada vez mais dividida entre peixes graúdos e peixes pequenos.

Reina entre nós a pseudo-democracia, que a todos obriga a ser sal na terra. Mesmo que contra tudo e contra todos, de forma livre e coerente, no respeito pelos mais íntegros ditames da consciência pessoal, uma das formas de salgar é votar. Aproximam-se novos actos eleitorais. Cumpre-nos, a todos, pessoas de bem, espalhar o sal da democracia, contra a corrupção, o oportunismo e a impunidade. É esta a força que todos temos, no exercício do sagrado direito/dever de cidadania.

Descansa na paz merecida o P.e António Vieira. As suas palavras continuam, porém, actuais e a ressoar como um hino perene à consciência individual e colectiva, por uma sociedade onde os peixes graúdos tenham a humildade suficiente para, de quando em vez, se lembrarem que os pequenos também são peixes e que todos fazem parte do mesmo mar.

Ah! Já agora, quando se comemora o dia de Santo António, sugere-se a (re)leitura da obra de Vieira, nomeadamente o sermão a que aqui aludimos. Um texto de hoje e de sempre, que continua a reclamar o grande milagre!

 José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência  no dia 17/06/2009

Meditação Pascal

Eis-nos chegados a mais um momento crucial na vida de crentes num Jesus Cristo vivente: a Páscoa. Passagem simbólica da morte à vida, do pecado à graça, do amoral ao ético, da descrença à fé. A Páscoa marca decisivamente uma etapa de regeneração e de emergência do Homem Novo. Um Homem que se constrói na interacção com o Outro, o humanamente humano, locus originário do bem-estar, do prazer e da felicidade.

Dir-se-á que locus de acontecimento e revelação, para o próprio sujeito e, n(E)ele e a partir d(E)ele, para a sociedade em que se insere. Os tempos que correm convidam à estupidez, à insensibilidade e à agitação. Convidam a que os fracos sejam cada vez mais fracos e hipotequem valores, crenças, a própria vida. Mas convidam, igualmente, ao triunfo, a um viver consciente que, disseminado, na alegria, na festa e nas boas-práticas, seja, ele próprio, semente de vida nova, de Primavera existencial. Apesar de caluniado, maltratado e entregue à morte, Jesus Cristo tornou-se Fonte de Vida, pautando o estabelecimento de laços de fraternidade, de solidariedade entre os homens e mulheres de boa-vontade. Aqueles e aquelas que teimam em afirmar a sua fé, desenvolvendo obras e iniciativas de inegável valor para a comunidade. Cristo gera, de facto, comunidade. Não o individualismo cego, cruel, que fere e mata, que deturpa e engana, que corrói e corrompe, porque assente na mentira, na calúnia, no ódio, na vingança e na perversidade. É tempo de festa para os Cristãos. É tempo de agitar mentalidades e transformar a vida individual e colectiva, a sociedade, em Mundo Novo, onde imperem a verdade, a fraternidade e o bem-comum. Em que cada um de nós procure alisar e amaciar o caminho, os passos do Outro, converter-se apaixonadamente em peça-chave da felicidade alheia, elevando o Outro à condição de real Humano, terreno propício à efervescência da comunhão, duma praxis enraizada no Amor. Jamais o contrário.

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência de 08/04/2009


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