“Impulsos do Coração” – Em memória do Dr. Coelho de Moura

Em início de novo ano escolar, não posso deixar de evocar e homenagear um ex-professor e eterno amigo: José Júlio Silva Coelho de Moura. Um verdadeiro Mestre. Daqueles, raros, que se cruzam connosco e marcam indelevelmente o nosso carácter, pelo seu saber, pela sua postura, pela maturidade humana, pela simpatia, pela constante partilha de experiências e vivências, pelos laços de amizade que são capazes de construir e que transcendem as próprias fronteiras da escola. O seu desaparecimento físico, em 5-01-2000, com apenas cinquenta e sete anos, não apagou em mim e em muitos dos que tiveram o privilégio de consigo privar, seus discípulos, as marcas de um Homem íntegro, feliz, apaixonado pela vida e pelas palavras, um pai, um amigo e conselheiro, um companheiro de verdade, poeta, pensador e contador de histórias. Como dizia um dos seus alunos, “um excepcional fazedor de sonhos”; ou uma colega, “um autêntico humanizador da vida”. Uma bênção.

Foi meu professor, no Colégio dos Carvalhos, onde leccionou durante quase duas décadas. Mais tarde, fui seu colega, na área da Língua Portuguesa e da Literatura Infanto-juvenil. Sempre trocámos livros, preocupações, ideias e orientações pedagógicas e didácticas. Recordo-o com profunda saudade, porque a minha vida é muito daquilo que em mim semeou, ao ponto de, sem disso eu próprio ter consciência, em determinada altura, ter marcado o meu percurso profissional. A sua contagiante paixão pela vida, pela língua e pela literatura, era a prova acabada de que a vida é feita das coisas mais simples mas, sobretudo, da qualidade das relações humanas que formos capazes de construir, no respeito, na verdade, na transparência e lealdade.

Recordando o professor Coelho de Moura, ecoam em mim palavras de Sebastião da Gama, que poderiam ser suas, porque fiel retrato deste mestre e pedagogo: “Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já me esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos” (in Diário)

Nos últimos dias de vida, hospitalizado, ia preenchendo o vazio das horas com alguns registos que partilho, fragmentos de um legado que conservo como um precioso tesouro:

Anestesiar é suspender a alma enquanto se conserta o corpo.

Operar baseia-se no princípio de que o corpo tem órgãos supranumerários que avariam só por serem dispensáveis.

Hospital é uma oficina onde se retiram peças, se encurtam passagens com as quais a vida não teria qualidade.

Curar-se não é tanto apoiar-se na química da medicina; é mais acreditar que se ganha saúde.

O gemido num hospital é o sinal de que o corpo não está bem com a alma.

Uma visita amiga ilude o tempo; a dor acentua-a”.

Obrigado, Professor-Mestre-Amigo-Colega. Obrigado pelo que continuas a ser em mim e em tantos dos teus alunos que ainda hoje te recordam com dor e saudade. As sementes que lançaste em nós continuam a germinar e a desabrochar em flores e frutos de humanidade. Regressaste a Viseu, tua terra natal, mas continuas a viver em muitos corações, sem fronteiras, em todas as áreas da vida social, artística, cultural e política.    

Fazem-nos falta professores e professoras assim. Sábios e Humanos Mestres e Educadores. Fazem-nos falta famílias e alunos que apreciem, reconheçam e valorizem aqueles que se lhes devotam incondicionalmente, com grande sentido de profissionalismo. Professores. Acima de tudo, Mestres, cuja vida gera novos sentidos e horizontes.

 

José Manuel Couto

 Publicado no Jornal Audiência de 29-09-2010

1 Response to ““Impulsos do Coração” – Em memória do Dr. Coelho de Moura”


  1. 1 catarina campos 08/10/2010 às 16:47

    Caríssimo professor Couto!

    Fiquei muito contente pelos seus comentários, principalmente por terem tão boas referências. Confesso que a citação sobre “limpar a poeira ao amor” me deixou francamente em reflexão… acho até, que ainda não lhe encontrei o verdadeiro sentido…aquele, que se calhar, até nem existe, porque pode ser diferente para cada pessoa. Certo?🙂

    A propósito do seu comentário, vim cá dar uma espreitadela (até porque nem sabia quem era o “grijo”) e, gostava de deixar escrito que senti muita honra e respeito pelas palavras que dedicou ao Dr.Coelho de Moura. Não o conheci, mas fez-me sentir nostálgica e com vontade de ter conhecido. Mas, como a minha mãe me disse ainda há dias, “estamos sempre a aprender com as pessoas, mesmo depois de elas já não estarem cá”.

    Um beijinho, catarina


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