VUVUZELAS E… INGRATIDÃO

Com o final do Campeonato do Mundo de Futebol 2010, não termina apenas o futebol, esse desporto dito “rei” que, quer se queira quer não, se impõe sobre todas as outras modalidades, relegando-as para lugar secundaríssimo. Alguém se deu conta de que acaba de disputar-se o campeonato da Europa de Atletismo INAS-FID – desporto para deficiência intelectual –, em Varazdin, Polónia? Alguém sabe que a selecção portuguesa conquistou 22 medalhas, várias de ouro? De acordo com o seleccionador José Costa Pereira, este resultados “(…) ultrapassaram todas as expectativas iniciais em relação ao número de medalhas, quer nos homens, que apresentaram uma equipa equilibrada e consistente, quer em femininos, que demonstraram muita união e competitividade”. (in JN, 11/07/2010). Caro amigo, desculpe, passou-nos ao lado!

Acaba, também, o ruído ensurdecedor das vuvuzelas, igualmente conhecida por cornetão (Brasil), xipalapala (Moçambique) ou, de forma mais erudita, aerofone. Isto é, instrumento de projecção do som por meio aéreo. De acordo com a enciclopédia livre, wikipédia, a origem da vuvuzela é muito antiga e originária de tribos ancestrais sul-africanas. Tradicionalmente feita com o corno da pala-pala [espécie de palanca nativa África Oriental e Austral], é conhecida no sul de Moçambique como xipalapala, sendo usada para convocar reuniões. Tornou-se popular na África do Sul, na década de 1990. Em 2001, uma empresa sul-africana começou a produzir em massa uma versão de plástico.

Nos meus tempos de infância, tocavam-se “os cornos”, com este adereço ou com um simples búzio, em alturas de reinação nocturna, por ocasião de novas núpcias secretamente guardadas e, assim, anunciadas para aguço da curiosidade alheia.

Mas não acabam, apenas, o futebol e as vuvuzelas. Acabam, do mesmo modo, longas semanas em que o mundo se distraiu ou abstraiu das grandes questões políticas e económico-financeiras. Portugal incluído, claro, que surpreendentes notícias não faltaram…

Acabou, graças a Deus! E nem sequer falo no (des)empenho da equipa nacional, recheada de nobres, milionárias e opulentas vedetas que se passearam, como em pleno gozo de férias, pelo Sul de África, como uma espécie de seres sobrenaturais, acima da vulgar humanidade.

À chegada, encheram de orgulho os milhares de portugueses ali residentes. Levavam um sopro de ar fresco.Levavam a mágica poção que pode alimentar o ego, a auto-estima e o auto-conceito de quem vive longe da pátria-mátria-berço-natal. Era ver as massas lusas, radiantes, junto ao aeroporto. Era vê-las, como em dia quente de volta a Portugal em bicicleta, a percorrer infindáveis kilómetros atrás do autocarro da selecção nacional. Era vê-las nos estádios a apoiar a sua equipa, gozando dias de férias, gastando parcos recursos… investindo tudo na alma lusa, porque o fulgor anímico não tem preço.

Mas à saída… os gloriosos e cansados obreiros do futebol, simplesmente viraram costas, sem mais. Nas últimas declarações do seleccionador nacional à imprensa, nem uma palavra de alento para esses portugueses para quem, apesar de tudo, a vida continua. Mas mais triste por uns tempos. Falta de humildade e gratidão. Quando uma palavra de agradecimento bastava para re-animar os espíritos desalentados de quantos passaram meses a sonhar com estes dias, de quantos se jogaram de corpo e alma aos pés da selecção e… afinal, apenas um virar de costas cheio de atropelos verbais e comportamentais, que a imprensa tratou de escalpelizar e divulgar à saciedade. Mas os portugueses que por lá andam, longe da Mátria, por lá continuarão. Mais tristes? Não sei. Mas talvez com mais vontade de fazer jus à verdadeira mística da alma lusa e afogar a má-criação dos narcísicos e mimados pseudo-heróis nacionais numa boa churrascada, bem bebida, de preferência, que a vida continua.

 

É por estas e por outras que, alheio ao fenómeno de massas, com as brutais contrapartidas económico-empresariais, por mim, os estádios estariam vazios, que o tempo do “amor à camisola”, do “sangue, suor e lágrimas”, já lá vai.

Aos portugueses, a residir na África do Sul ou noutras paragens, dentro e fora da Europa, que o português, como alguém dizia, tem um pedaço de terra para nascer e o mundo interior para morrer, resta-me desejar boas férias e que o dito churrasco caia bem.

Ah! Já agora, parabéns a todos quantos nos orgulharam no supramencionado campeonato da Europa de Atletismo. Força, heróis e heroínas! Dentro de dias, estará na estrada o verdadeiro desporto de massas populares: a volta a Portugal em bicicleta. Voltará a reinação às nossas ruas. A algumas, pelo menos, que aqui mandam as pernas no coração, mas o coração também vai mandando nos eurinhos do patrocinadores. Não há remédio!

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência de 14/07/2010

0 Responses to “VUVUZELAS E… INGRATIDÃO”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Calendário

Julho 2010
S M T W T F S
« Jun   Ago »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Arquivos

Estatísticas do Blog

  • 32,330 visitas

%d bloggers like this: