SOL LUCET OMNIBUS

A esta hora, interrogam-se alguns leitores sobre o significado do título do presente artigo de opinião. A locução enunciada mais não significa do que “O Sol brilha para todos”, naquilo que vulgarmente se traduz por “O Sol, quando nasce, é para todos”.

Ainda assim, podem continuar a interrogar-se: e vem isto a propósito de quê? Nada mais, nada menos do que a propósito do tempo que tem feito: um tempo quente, de Verão, a convidar à praia, onde muitos corpos se abandonam já ao lazer e ao bronze. Sobretudo por parte de estudantes que, de férias, aproveitam para rever amigos e amigas, conviver e passear os olhos pelas mais ou menos acentuadas curvas e contracurvas, habitualmente abscônditas, aqui reveladas sem qualquer tipo de pudor. De facto, a praia nivela, iguala, aproxima, liberta.

Como na morte, salvaguardando as devidas distâncias, tirando a marca e o eventual preço do bikini ou do calção, a parca ou lauta refeição que se faz ou a distância da praia seleccionada, aqui todos somos iguais.

Lia hoje que o país está sob enorme pressão. Afirmava-o um alto dirigente político nacional. E interrogava-me: o que saberá da crise um alto dirigente político, de carreira? De que crise se fala? O que pensa um alto dirigente político ou um grande empresário quando usa esta expressão? De que crise falam? Certamente que não da mesma crise que a maioria dos comuns mortais deste “país à beira mar plantado” sente e vozeia. Para aqueles, a crise não passará de simples arranhão à flor da pele e que rapidamente cicatriza. Para o povo, a dita pressão ou já empurrou para o desemprego ou para um qualquer subsídio ou, ainda, para um escasso ordenado há muito ultracongelado… Pelo que a crise está já entranhada no tecido subcutâneo, contaminando noite e dia, segundo-a-segundo, ininterruptamente, os vasos sanguíneos, os nervos e as próprias células.

Há algum tempo, numa das crónicas com que nos brinda diariamente, no JN (24/10/2009), Manuel António Pina revelava que “(…) Os portugueses comuns – os que têm trabalho – ganham cerca de metade (55%) do que se ganha na zona euro, ao passo que muitos dos nossos gestores recebem, em média,  mais 32% do que os americanos; mais 22,5% do que os franceses; mais 55 % do que os finlandeses; mais 56,5% do que os suecos”.

Traduzido em euros, isto significa o quê? Não sei. Não sabemos. Sabemos, apenas, que significa muiiito mais do que aquilo que por aí se propala, a rondar o escândalo.

Portanto, a melhor maneira de fugir à crise é aproveitar o Sol que faz e estirar-se ao comprido numa das belas praias da nossa Costa porque, por agora, ainda ninguém se lembrou de começar a cobrar o m2 de praia e da atlântica ou mediterrânica água em que nos banhamos.

Ah! E algumas até têm ecrã gigante para que, bem vestido, de bikini ou em calção, se possa assistir comodamente ao Mundial de Futebol. Tudo grátis, salvo complementares acepipes.

Felizmente, o Sol brilha para todos! Aproveitemo-lo, antes que alguém se lembre de o mandar tapar e de o ir desvelando em troca de uns portajados euritos.  Por agora, ainda chegamos todos ao andar de cima!

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência de 30/06/2010

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