(DES)ESPERANÇA

Nas últimas décadas, a Vila de Grijó tem vindo a descaracterizar-se profundamente. Longe vão os tempos de um povo com uma dinâmica própria ao nível empresarial e de empregabilidade, no âmbito da agricultura, da carpintaria, da serralharia, da tanoaria, da construção civil em geral, da arte floral artificial, dos têxteis sintéticos, etc. etc.

Longe vão os tempos dos tradicionais “Leilões do Menino”, que resultavam em avultadas receitas e alimentava o sonho da construção de um lar da 3ª idade; que resultavam, sobretudo, na saudável competitividade entre as diferentes zonas (Alta, Baixa, Briosa e Bairrista) da Freguesia-paróquia.

Temos uma Vila profundamente dividida. Não porque as pessoas não continuem a ser generosas, solidárias e a sentir necessidade de se unirem em torno de projectos comuns, mas porque a gestão política da coisa pública se tem centrado em personagens muito concretas que, sem ideias que promovam uma real dinâmica artística, social e cultural, têm conduzido os destinos da Freguesia a um marasmo e conformismo incompreensíveis. Diz-se que o povo gosta, por isso continua a reconduzir os mesmos actores políticos. Não porque seja ignorante, que o povo é sábio, mas porque lhe alimentam falsas esperanças com um populismo vazio de conteúdo, que não gera outras dinâmicas que não as do servilismo, do compadrio e da dependência.

A Vila de Grijó precisa de pessoas sérias, bem formadas, que sejam capazes de pôr de lado interesses meramente pessoais e de se centrarem no real serviço público. Um serviço público que conduza à reivindicação e à concretização de melhores vias públicas, hoje num estado profundamente degradante; à criação de espaços de lazer e recreio, para os cidadãos em geral, mas particularmente para crianças e idosos; um apoio incondicional às pessoas com deficiência, altamente marginalizadas; a criação de condições de trabalho e de aprendizagem em algumas escolas, nomeadamente em Corveiros, e jardins-de-infância; a recuperação de espaços artístico-culturais, cheios de memória, como são, por exemplo, os velhinhos lavadouros públicos, que poderiam ser pretexto e palco de concertos, noites de fado, folclore…; a promoção de iniciativas conjuntas e complementares por parte das diversas colectividades e associações de recreio e cultura da Vila; a reivindicação e criação de um centro de saúde condigno, que coloque Grijó no mapa da qualidade…; a abertura da vida pública aos jovens, porque eles e elas pensam, sabem o que querem e podem tomar decisões vitais para o rejuvenescimento da nossa Vila, em todas as frentes, desde que não aprisionem e hipotequem os seus ideais; a aposta séria na formação global dos grijoenses, sobretudo do ponto de vista cívico. Mas falta-nos um auditório condigno que possa converter-se num espaço privilegiado de cultura, aprendizagem e partilha de boas-práticas.

Há muito que, infelizmente, a Vila de Grijó é, apenas a soma de muitas partes, sem qualquer laço entre si, fracturadas. Pena que assim seja. Melhor, é vergonhoso que assim seja. Há quem esteja a tempo inteiro na sua gestão, com responsabilidades no pensar e no agir. Urge a tomada de medidas. Serão capazes? Parece-me tarde, porque se criaram rotinas que atrofiaram e esclerosaram.   

Há muito que o digo e desejo: precisamos todos de sentir Grijó como a nossa casa comum, que nos compete manter asseada e unida, na pluralidade da diferença, sem partidarites. Uma unidade assente no respeito, na tolerância e na complementaridade e entreajuda.

Queiram os responsáveis políticos da Freguesia. Mas eles não querem. O que querem é outra coisa bem diversa.

José Manuel Couto

Publicado em “A Voz de Grijó” (http://www.vozdegrijo.com/), no dia 13 de Abril de 2010.

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