Em memória do Leandro Filipe

Ninguém pode ficar indiferente ao destino do Leandro Filipe, o adolescente de Mirandela, desaparecido nas águas do rio Tua, há cerca de três semanas. Ao que se sabe, minutos antes de se lançar ao rio, farto da violência e das constantes humilhações a que estava sujeito, terá dito: “Estou farto desta escola”.

A escola é um espaço fundamental, não apenas no processo de aprendizagem de saberes e experiências básicas para a vida, mas, sobretudo, da transversal competência da socialização. Assim, além do que se aprende, importa criar, reforçar e consolidar laços de amizade, de companheirismo e de solidariedade. Mas nem sempre é o que acontece. Como fora dos muros da escola, também lá dentro existe quem tente exercer o poder pela força, pela violência, naquilo que se vem designando por bullying. Todos conhecemos, certamente, histórias de agressão e extorsão, entre colegas, habitualmente mais velhos; mas, também, mais novos, às vezes encorajados e resguardados por um pequeno grupo.  

Perdeu-se o Leandro. Perdeu-se uma vida. Perdeu-se uma criança que sonhava e alimentava esperanças. Muitas, de acordo com a família mais próxima. Os esforços da Protecção Civil de Bragança nem sequer foram suficientes para encontrar o corpo do adolescente (numa fase inicial. O cadáver haveria de aparecer a flutuar nas águas do rio). Sabemos que, entretanto, o Ministério da Educação abriu inquérito interno para apurar o que aconteceu. O Ministério Público abriu, igualmente, um inquérito judicial. O mesmo se diga da Direcção Regional de Educação do Norte. Independentemente das conclusões a que chegarem, o processo será irreversível para o Leandro. E os actos de violência, verbal e física, continuarão. Não apenas entre colegas, mas, em muitos casos, também contra os próprios funcionários e professores, o que pode vir a configurar crime público. Estamos todos fartos de inquéritos e mais inquéritos, quase sempre inconclusivos e inconsequentes.   

É, certamente, um problema a que as direcções de agrupamentos, as coordenações de escolas, os próprios professores e outros agentes educativos têm que estar atentos, impondo tolerância zero a este tipo de comportamentos. No entanto, tenho consciência de que a força não se reprime com a força, mas com a progressiva tomada de consciência de que este tipo de comportamentos é inaceitável. Atenta profundamente contra a liberdade do outro, inclusivamente a liberdade de ser diferente e, talvez, menos resistente a determinados actos facilmente contornáveis por outros. Dentro e fora da escola, urge uma tomada de consciência clara do que é a cidadania, dos mais elementares direitos e deveres. Urge, essencialmente, desde a mais tenra idade, uma educação para o respeito e a tolerância.

O caso mediático do Leandro deve levar-nos a reflectir sobre o que se passa à nossa volta: nas nossas escolas e, sobretudo, no seio da família, no nosso lar, o ninho onde se partilham e constroem vivencialmente os valores fundamentais. Não há nada mais sagrado do que a vida, a começar pela do outro. A vida não pode deixar de ser, sempre, um acto de amor.

Lamento profundamente a morte do Leandro. Lamento profundamente que, como o Leandro Filipe, muitas crianças continuem a estar sujeitas a tratamento vexatório. Como pai e professor, gostaria que este caso não caísse no esquecimento. Façamos dele uma rampa de lançamento para uma nova educação, uma nova escola, um novo espaço de debate e interiorização de valores. Mais do que apreender conhecimentos, tantas vezes abstractos, desenraizados dos aspectos mais elementares da vida e da convivência social, importa interiorizar valores que se traduzem numa prática concreta de respeito e apoio ao outro. Que nenhuma criança, adolescente ou jovem ouse proferir mais um “Estou farto desta escola”. Porque a escola é espaço, tempo e lugar de festa, de prazer de convivência e aprendizagem; de crescimento e realização. Logo, ao contrário daquilo em que se tem convertido, tantas vezes, espaço, tempo e lugar sagrados. Quero acreditar que por aí existem muitas destas escolas. Quero acreditar que muitas outras o serão, cada vez mais. O Leandro ficar-nos-á eternamente grato.

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência, de Vila Nova de Gaia, de 24/03/2010

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