LOBOS ENTRE CORDEIROS

Desde há alguns meses, esta nobre nação tem sido bombardeada com notícias e mais notícias sobre alegados actos de corrupção, ao mais alto nível. Tão alto que, a avaliar pelas conversas informais de café e de vizinhança, ao comum dos cidadãos pouco diz. Todos se sentem vítimas de uma emaranhada teia – a dos que a teceram e nela se envolveram directamente, a da imprensa, a do contraditório… –, uma teia que, de tão complexa, não chega a ser descortinada nem a interessar ao povo. Não apenas porque se fala de actos que se traduzem em ganhos, directos ou indirectos, com números pouco inteligíveis, mas porque nos temos vindo a habituar a uma catadupa de tais práticas novelescas e, no caso da maioria dos comuns mortais, pouco se pode fazer para que a situação se inverta. Não resta tempo para preocupações outras que não o empenho diário nas diferentes actividades profissionais, esse, sim, o real ganha-pão, sofrido e parco. 

Como tenho dito noutras ocasiões, funcionasse a consciência cívica e moral, funcionasse a justiça, célere e expedita, tudo seria mais transparente e mais humano.

Apenas porque se gerem bens públicos; apenas porque alguém se move na esfera do poder ou do fácil tráfico de influências; apenas porque se torna fácil entrar nas obscuras malhas do lucro fácil e aparentemente impune; apenas, apenas… nada justifica que alguns se tomem por hábeis predestinados para pensar, subjugar e pilhar os outros. Trata-se de uma questão de educação elementar. Mas nem todos pensam com a cabeça e o coração. O que não falta é quem pense com a carteira. Nunca deveriam chegar a lugares de poder, porque muitos destes não ultrapassaram a etapa do egocentrismo, que tipifica um importante marco do desenvolvimento pessoal. Mas na mais tenra infância; não na adultez. São altamente perniciosos para a democracia, para a humana igualdade de direitos e oportunidades e para o bem-justo-estar dos seus concidadãos.

Ao contrário de muitos, não ouso julgar ninguém em concreto. Tal tarefa compete aos nossos tribunais, a quem não faltam meios para assegurar escrupulosamente a justiça, sempre célere no tratamento de pequeníssimos e inofensivos “delitos”, de gente simples e comum, mas sempre inconclusiva quando estão em jogo casos de monta e figuras públicas. Um universo complexo, muito complexo…

Por mim, prefiro continuar a apostar na boa-fé, na seriedade da gente simples, que não se deixa enredar neste verdadeiro e sofisticado carteirismo de elite, nas mais variadas frentes da vida política, social e desportiva. Mesmo não julgando ninguém em concreto, não têm faltado mediáticos exemplos de quem tem vindo a escalar o território do rápido, fácil e insolente enriquecimento… sem outro esforço que não seja a astuta dissimulação.

Mas que é preciso fazer alguma coisa, lá isso é! Fica o desabafo, que pouco mais nos resta. Por alguma razão, dizia Jesus Cristo: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos” (Lc, 10, 2-3).

José Manuel Couto

 (Publicado no Jornal Audiência, no dia 24/02/2010)

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