ANO NOVO: O INFALÍVEL VENENO DO TEMPO

A ilusória e meramente convencional barra cronológica da História assinala universalmente a entrada no ano 2010.

Passa o tempo, corre o tempo, busca-nos o tempo. Melhor, movemo-nos, corremos e buscamo-nos no tempo, “imagem móvel da eternidade imóvel” (Marcel Proust). Neste início de ano, citando Álvaro Magalhães, dou comigo a pensar: “De que é feito o tempo que nos faz? / Quanto tempo há? / Para onde vai o tempo que já foi? / Onde está o tempo que virá?”

Um conjunto de interrogações, de natureza filosófica, que nos interpelam genericamente a assumir não apenas que o tempo é a substância de somos feitos (J.L. Borges), mas, sobretudo, a tomar consciência da transitoriedade dos dias, mesmo destas datas especiais, que nos embarcam num aparente movimento circular, numa espécie de “mito do eterno retorno”: todos os anos festejamos as mesmas datas, as mesmas festividades, a mesma esperança… Contudo, sempre que inauguramos um novo ano, renovamos votos e procuramos relançar um remoçado olhar sobre o presente e o futuro, confiantes de que, apesar de os dias nos parecerem sempre iguais, talvez algo possa mudar na nossa vida, nas suas múltiplas dimensões.

O tempo é efémero. É, assim, a mais implacável das realidades e o mais infalível veneno. Reflectindo sobre esta problemática, conclui Ralph Waldo Emerson: “Tabaco, café, álcool, ácido prússico, estricnina – todos não passam de poções diluídas: o mais infalível veneno é o tempo. Essa taça, que a natureza nos põe nos lábios, possui uma propriedade maravilhosa que supera qualquer outra bebida. Ela abre os sentidos, adiciona poder e povoa-nos de sonhos exaltados, a que chamamos esperança, amor, ambição, ciência. Em particular, ela desperta o desejo por maiores doses de si. Mas aqueles que tomam as maiores doses ficam embriagados, perdem estatura, força, beleza e sentidos, e terminam em fantasia e delírio.”

Entre o passado mais ou menos consciente e o futuro sonhado, sorve-nos o tempo presente, o nosso tempo, o tempo em que se joga inteiramente quem somos, num movimento dialéctico e (inter)subjectivo de olhares: o nosso e o alheio. Olhares que correm lado-a-lado e que dificilmente se (inter)cruzam. Porque cada um se procura, inebriado, a si próprio, em busca de “maiores doses de si”, alheado do perigo de colisão e asfixia moral.

Talvez o Ano Novo seja um sinal de que, apesar da efemeridade dos dias e do tempo que neles se esgota, em movimento eterno, a única marca indelével da passagem de cada um de nós pelo tempo-espaço da vida seja mesmo a aposta incondicional no respeito por esse Outro que caminha a nosso lado; na tolerância e na procura incessante de diálogo e compreensão; no espírito de fraternidade; na sensatez e na prudência de palavras e actos.    

Ah! À moda de humoristas bem conhecidos na nossa praça, face à breve reflexão partilhada, apetece-me concluir: cuidado com esses rapazes que, embevecidos com o aparente poder e a força que lhes advém do uso e abuso de cargos públicos e das estratégias delineadas por mentes outras, vão triturando tudo o que mexe fora do seu território, esquecendo-se de que a corda da vida, presa à roldana inexorável do tempo, se movimenta cadenciada e alternadamente entre a ascensão e a queda. Os que assim não pensam hão-de começar a perder “estatura, força, beleza e sentidos” e terminarão, certamente, em “fantasia e delírio”.

O Novo Ano convida à sensatez, à conjugação de esforços no sentido do equilíbrio, na certeza de que o que se perde no presente, ganha-se no futuro.

A todos/as os/as leitores, desejo um próspero 2010. Façamos por isso!

 José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência de 06/01/2010.

1 Response to “ANO NOVO: O INFALÍVEL VENENO DO TEMPO”


  1. 1 Oliveira 10/02/2010 às 16:44

    Hora viva, hoje o nosso pequeno trabalho começou a dar os seus primeiros e pequenos frutos. Consultem a pagina 16 do Jornal de Notícias de 10-02-2010. Lá constam as primeiras meias verdades sobre o aterro de Sermonde e a central de compostagem ai a instalar. É uma espécie de notícia encomendada.

    Podem ver através deste link como funciona e o que é uma central de compostagem.
    1. Central de Compostagem – urbi et orbi

    A verdade dos factos é que a localização para o novo aterro, ao que conseguimos apurar, pode já estar definida para Grijó.

    Oliveira

    Para consulta em
    Grijoenses blogue


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