HISTÓRIA DE NATAL

Amante das tradições em que se enraíza a nossa identidade pessoal e comunitária, fui presença regular, em tempos, num programa de uma rádio sedeada em Espinho. Da interacção estabelecida com os ouvintes, sobre questões de etnografia, foram-me relatadas, por alturas do Natal, muitas histórias e memórias associadas à quadra. Pelo exemplo da solidariedade e da fraternidade que sempre comovem alguns corações, de uma forma especial nesta altura tão simbólica e distinta, não posso deixar de partilhar aquela que me foi contada pelo também gaiense Joaquim Rosário, na primeira pessoa:

«Esta história passou-se nos anos sessenta, tinha eu nove anos de idade, numa noite de véspera de Natal. O meu irmão mais velho, que era também meu padrinho, tinha regressado de Angola, havia pouco tempo. Como, nos últimos anos, os natais tinham sido um pouco tristes, devido à sua ausência, tudo se conjugava para que este fosse um pouco mais alegre.

Recordo-me perfeitamente de não haver energia eléctrica, devido à queda de umas árvores sobre os fios de electricidade, em consequência do mau tempo que fizera uns dias antes. Daí a ceia estar a ser preparada à luz de um candeeiro a petróleo, o que deixava no ar um cheiro desagradável.

Com todo este aparato, e ao redor da lareira, a família ultimava os preparativos para a grande noite: a minha mãe e as minhas irmãs, mais envolvidas na caldeirada, nas rabanadas, nos “bilharacos” e na aletria…; os homens, com outros afazeres, esperavam ansiosamente todas aquelas delícias.

Tinha caído a noite e a família estava toda reunida. Eis a hora ideal para se rezar o Terço, coisa que não se dispensava todas as noites antes da ceia.

Foi então que, para surpresa de todos, o meu pai me disse:

– Ó rapaz, vai com a tua irmã mais nova a casa da “Sr.ª Ana do Branco” e, se ela estiver em casa, que venha consoar connosco!

A Sr.ª Ana era uma vizinha com mais de setenta anos. Vivia sozinha. Tinha dois filhos, mas ambos estavam emigrados em França. Para sobreviver, a Sr.ª Ana dedicava-se à apanha e seca de plantas que vendia a ervanários que por ali passavam com regularidade.

Creio que também a senhora ficou um pouco surpreendida com a nossa proposta… Mas, depois de alguma hesitação, lá se decidiu a vir connosco.

Rezamos então o Terço em conjunto, antes de nos sentarmos para consoar, já com luz eléctrica, pois tinha acabado de voltar, o que nos trouxe redobrada alegria nessa noite.

Escusado será dizer que passamos uma das mais agradáveis noites de Natal, com histórias contadas por uma velhinha que tinha um dom muito especial para as contar, e o meu irmão recordou, com alguma mágoa, os últimos natais passados em terras ultramarinas.

Passaram já mais de quarenta anos… Porque as circunstâncias da vida não permitiram que passássemos muitos mais natais juntos, a verdade é que nunca mais esqueci, e dificilmente esquecerei, esta grande noite de Natal».

Em tempos de profundas crises, de que sobressaem a económica e a moral, não faltarão entre nós, certamente, tantos e tantos gestos de afecto, reais histórias e memórias de Amor, a lembrar que não há coração que resista ao espírito de Natal.

 José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência, no dia 23/12/2009

2 Responses to “HISTÓRIA DE NATAL”


  1. 1 Oliveira 05/01/2010 às 0:29

    Ao ler este comovente “conto de natal” lembro-me de tantos outros que nesta Vila de Grijó se passaram e os que por arrasto desta crise que parece não ter fim, se irão proporcionar.
    Pois de Freguesia a Vila já passamos, a lapide que perpetua esse dia também lá continua, tudo o resto já todos esqueceram, comemorações, direitos adquiridos, enfim nós por cá teremos grandes celebrações da festa dos Reis e em seguida ainda embalados pelo espírito bondoso do natal teremos a recolha de fundos, ou como alguns chamam leilões do menino. Eu prefiro guardar na memória pequenos detalhes como aquele exposto no texto anteriormente lido e tenho a certeza que me lembrarei em vários momentos do ano desta “parábola”, em detrimento de certos malabarismos circenses, cuja utilidade é óptima mas a organização é manobrada de forma muito pouco esclarecedora.
    Viva a época Natalícia, Viva o Jesus Salvador.

    Cumprimentos

    Oliveira

    • 2 grijo 05/01/2010 às 12:55

      Oliveira, concordo consigo, em absoluto. Tenho muita pena que a nossa vila se venha a descaracterizar progressivamente. Não se trata da natural mudança dos tempos. Trata-se de desinteresse das pessoas em pensar, em decidir, em unir uma freguesia, que poderia ser exemplar, dada a sua diversidade e riqueza, do ponto de vista arquitectónico, profissional, etnográfico…
      A avaliar por actos recentes, as pessoas não estão interessadas em formar-se, em rasgar horizontes, em pensar por si. Preferem alienar o direito/dever de pensar, entregando essa tarefa a quem também não tem essa capacidade. E a freguesia lá se vai arrastando penosamente, cada vez mais subdesenvolvida. Alguns querem mudar. Dominam os instrumentos dessa mudança. Têm competência para o fazer, mas a letargia e as teias de relações e interesses são mais fortes. Há gentalha politicante que tem poder e outros mesquinhos e particulares interesses a defender.
      Temos tanto, tanto a fazer em Grijó. Mas, claro, temos que trabalhar, temos as nossas profissões a desenvolver, as nossas vidas a construir… E quem anda por aí a tempo inteiro não zela pelos nossos interesses. Passeia-se, pavoneia-se, desculpando-se, com esfarrapados argumentos que só convencem os pobres espíritos. E está a fazer escola, ao que parece. O povo gosta, agradece, premeia, desde que em troca se passem uns atestados de pobreza, garantia directa de subsídios, casas, limpezas de terrenos particulares e outras benesses. Mais do que ideias e acções para uma mudança radical, o que interessa mesmo são festas, bailaricos, comezainas e trocas de favores.
      Não sei como sairemos daqui. Pela minha parte, tenho denunciado e feito o que está ao meu alcance, mas a máquina está bem montada, é pesada. Ninguém quer saber do estado deplorável das ruas; dos espaços de recreio e lazer; dos nossos típicos lavadouros públicos; das creches que não existem; de um auditório ou centro de desenvolvimento artístico e cultural; das nossas colectividades, elas próprias a carecer de um forte e remoçado impulso; das escolas e jardins-de-infância… tradições a recuperar, a preservar e disseminar em projectos articulados com espaços educativos,… com as pessoas mais idosas e desempregadas da freguesia
      Tudo isto poderia promover o desenvolvimento humano e cultural da freguesia. Tudo isto poderia contribuir para formar e unir Mas… o povo prefere assim. Pois assim seja, que isto desgasta e cansa.

      Nota: lamento que alguns dos comentários aqui deixados não tenham rosto. Os meus têm: aqui como em tudo o que escreve, mesmo na imprensa regional. Não tenho medo de nada nem de ninguém, apesar da permanente exposição pública. Move-me, apenas, a consciência. Juntos seremos mais fortes.
      Abraço
      José Manuel Couto


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