“O suborno cega os olhos do sábio e falseia a causa dos justos” (Deuteronómio 16,19)

Lavra (n)o nosso país um clima de suspeição geral sobre o uso e abuso do poder, em proveito próprio. Nada que não se soubesse. Melhor, nada que não se intuísse, graças ao facto de serem sempre os mesmos a ganhar determinados concursos; graças, ainda, ao facto de quem pode e manda ser sistematicamente nomeado ou reconduzido em certos cargos. Muitas vezes, quer ao nível central quer autárquico, mudam-se os lugares, mas mantêm-se os mesmos que, como num carrossel, lá vão andando de poleiro em poleiro, especialistas em tudo, o mesmo é dizer, em nada de nada.

E o pior é que o país se vai convertendo numa espécie de sucata: dourada e nauseabunda. Dourada para quem vai enriquecendo desmesuradamente, a par de mordomias outras inacessíveis ao comum dos mortais. Tantas! Nauseabunda porque afunda na lama social e do desemprego aqueles e aquelas que todos os dias se esforçam por cumprir, penosamente, às vezes, as suas obrigações, em todas as frentes. 

Estão por esclarecer cabalmente os casos Freeport, os incomensuráveis actos de corrupção no Banco Português de negócios (BPN), na Sociedade Lusa de Negócios (SLN), no comércio de sucata, no processo “Casa Pia”, etc., etc.

Fala-se, hoje, na “Face Oculta”. Mas há faces ocultas? Estou em crer, desde a primeira hora, que a designação encontrada oculta, ela própria, a substância do problema. O que há, isso sim, é negócios mais ou menos ocultos por parte de gente que tem rosto e que deve ser investigada até às últimas consequências, caia quem cair. Neste mundo de corrupção não pode haver partidarismo. Apenas Justiça.  Um dos princípios fundamentais, consagrados na nossa Lei Suprema, a Constituição da República, é o de que, ao Estado, compete “Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses (…)”. Por conseguinte, ninguém está acima de ninguém!  Pensando bem, não estará mesmo? No plano teórico, não; no plano prático é claro que está, sob a capa de uma, aparentemente, incontornável promiscuidade institucional.

As nossas gentes, a começar pelos que as governam, em todas as frentes, precisam de formação. Formação séria, desde a mais tenra idade, para se tornarem esclarecidas. Para, por um lado, não se deixarem envolver nesta emaranhada teia da corrupção e, por outro, não se demitirem da nobre tarefa de colaborar na construção de um país desacreditado e desesperançado, assumindo um papel activo, também na denúncia de situações e negócios ocultos. 

A História local e autárquica revela que as pessoas têm medo de represálias. Muitos sabem que há pessoas que facilmente acedem a determinados lugares, num regime de empregabilidade por simpatia e compadrio político-partidário. Muitos sabem que não falta quem queira vergar consciências e princípios, com a adopção de metodologias demagógicas. Muitos sabem muita coisa, mas vinga o princípio tantas vezes ouvido de que “Este mundo é dos espertos, dos habilidosos”. De facto a corrupção é o mundo dos habilidosos que, por experiência, sabem-se impunes, dê para onde der. Gente impreparada para a vida cívica, sem escrúpulos, sem valores ético-morais. Como em fila de trânsito, passam à frente de tudo e de todos, como se não tivessem que obedecer às mesmas regras e seguir o curso da vida lado-a-lado com os outros mortais. Gente ardilosa, de aguçado engenho para “comer” os outros, subestimando-os, subalternizando-os.  

A concluir, cito Mário Crespo quando, em artigo intitulado “Os intocáveis”, publicado no JN (02/11/2009), diz: “O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação”.

Basta ver no que tem dado o processo “Casa Pia”. Alguém se lembra? Daqui a dias, passa à História e, com ele, vidas que caíram em maldita e branqueada “manhã submersa”.

 José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência, 25/11/2009, p. 11.

0 Responses to ““O suborno cega os olhos do sábio e falseia a causa dos justos” (Deuteronómio 16,19)”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Calendário

Dezembro 2009
S M T W T F S
« Nov   Jan »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Arquivos

Estatísticas do Blog

  • 32,330 visitas

%d bloggers like this: