“Os intocáveis”

Nesta hora em que o clima de corrupção instalado em Portugal começa a transbordar, aos poucos, para poucos…, publico texto de Mário Crespo. Um texto oportuno, contundente, assertivo, sempre actual. Que bom seria se a onda crescesse e muita gente falasse do que sabe …  

” O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Mário Crespo: foto extraída de http://diarioinsular.com/version/1.1/r11/img/2009.06.07//rui.jpgPereira – se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.

Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.

O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: “O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)”. O “Senhor jornalista” provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.

Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no “no comment” a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca”.

“Os Intocáveis” – M. Crespo / JN: 2-11-2009

1 Response to ““Os intocáveis””


  1. 1 grijo 06/11/2009 às 19:31

    É fundamental que quem conhece ou suspeita de acções de suborno e corrupção levante o véu e as denuncie sem medo. Ninguém está acima de ninguém. Caia quem cair. Investigue-se e puna-se severamente os prevaricadores. Somos um país pobre, cada vez mais empobrecido graças a gente que não presta, que espolia quem pode, selvaticamente.
    Concordo plenamente com o eurodeputado Nuno Melo, que, ontem, dizia, no programa “O Corredor do Poder” (RTP1) que “a corrupção é, hoje, o maior cancro do país”. Isto é uma vergonha, no plano nacional e autárquico, mesmo ao nível de pequenas freguesias. Há gentalha que apanha-lhe o jeito e é… “soma e segue”, porque sempre impunes. Há mesmo quem diga que “este mundo é dos habilidosos”. Só que à custa destes habilidosos, o país empobrece e alguns cidadãos, honestos, sérios, trabalhadores e cumpridores das suas obrigações legais/fiscais/sociais, vão penando para andar “de cabeça levantada”.
    Maldita gentalha, que se acha superior e mais esperta que os seus concidadãos, deles se servindo impiedosamente.
    Mas se há corruptos, há corrompidos. São tão bons uns como os outros. Todos se enredam numa espécie de teia de que nunca mais se sai, porque se gera uma cadeia infindável de interesses, de trocas e serviços que conduz a uma silenciosa e amordaçada cumplicidade, onde a regra é muito simples: ou calas-te ou caímos todos. E ninguém se quer sujar.
    Vergonhoso este estado de coisas.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Calendário

Novembro 2009
S M T W T F S
« Out   Dez »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930  

Arquivos

Estatísticas do Blog

  • 32,330 visitas

%d bloggers like this: