ERA UMA VEZ… ou HISTÓRIA DE UM CAVALEIRO ANDANTE

Era uma vez um pobre menino que vivia numa terra distante, com os bolsos cheios de nada, como tantos outros meninos. Cresceu e fez-se rapaz-homem. Um dia, atraído por uma paixão arrebatadora, partiu à descoberta do seu “Eldorado”: uma cidade cujas construções seriam de ouro maciço e cujos tesouros existiriam em quantidades inimagináveis? Ou uma terra de boa gente, que lhe abrisse os braços e o acolhesse amigavelmente?

Ambicioso e sonhador, o rapaz depressa se adaptou à nova terra e às suas boas gentes. Tão boas que, um certo dia, aproximando-se uma corrida de cavalos, o convidaram para nela participar, como um dos seus. O rapaz, meio a tremer, qual D. Caio, desabafou:

– Mas…, mas eu não sei andar a cavalo. Sou filho de gente pobre que não tem cavalos… e não aprendi a arte… acho que até nunca vi um cavalo ao vivo!…

– Não faz mal, depressa hás-de aprender, que tens perfil de cavaleiro – responderam-lhe alguns outros aprendizes de cavaleiros.

– Bom, assim sendo… Reconheço que aprendo facilmente e que depressa me tornarei um hábil “passa por cima de toda a folha” como mágica vassourinha – asseverou.

Conta-se que o dito rapaz entrou na tal corrida, sempre ladeado por alguns dedicados cavaleiros de nomeada e por alguns zelosos aprendizes. Sem saber como, conta a história, rapidamente aprendeu a arte de cavalgar. A sua arte de cavalgar, que era tarde para aprender… Não de acordo com regras e princípios deontológicos milenares, mas com regras muito próprias, daquelas que não vêm nos livros. E assim… logo venceu a sua primeira corrida. Durante muito tempo, toda a gente se interrogava:

– Fantástico! Como é possível? … Chegou agora, nem sequer sabe andar a cavalo…

Não sabia nem nunca aprenderia, porque era um rapaz rebelde e estava mais interessado em ganhar do que em aprender. Não aprendeu a técnica de cavalgar, mas aprendeu a (sua) arte de aparelhar o cavalo, com os arreios da vergastada psicológica e de uns truques, ditos de pocilga e estrebaria, e de o espantar de forma estonteante em direcção a uma qualquer meta. Não importava como. O importante era mesmo vencer, movido pela maquiavélica expressão que bem conhecia, de que “Os fins justificam os meios”.

– Como é possível? – Interrogam-se mestres cavaleiros e aplicados aprendizes de equitação.

Ninguém sabe. Nem o próprio cavaleiro andante. Mas que vence, vence.

Conta-se, a propósito, que, certo dia, correu lado-a-lado com um dos seus mestres. Quem ganhou a corrida? O ardiloso cavaleiro. Conta-se, ainda, que o dito cavaleiro sonhou abrir uma escola de formação, para ensinar a (des)arte e que não faltaram inscrições, a um preço insólito: cega lealdade. Uma escola peculiar: não há aulas teóricas; apenas práticas.

Concluindo, ficamos a saber que há duas maneiras de vencer uma corrida de cavalos: ou frequentar uma escola de equitação e, a certa altura, enfrentar as corridas, dominando o cavalo com mestria, de forma intencional e (quase) segura – para público e cavaleiro –, respeitando as regras mais elementares da competição equestre ou, como no caso do dito rapaz, atirar-se, simplesmente para cima do cavalo e, à força de vergastada, e de prometidos engodos esperar que ele corra temerosamente e atinja a meta antes dos outros. Não sabe cavalgar, não tem o mínimo conhecimento do que isso é, não respeita ninguém, avança por cima de toda a folha… mas chega. Talvez o sabor da vitória não seja o mesmo, mas sempre leva a taça. E uma taça é sempre… uma taça.

Ah! Quanto à escola de “equitação”, veremos o que nos contam as gerações vindouras, que esta história acaba aqui e dela nada mais reza a História. Resta-nos a certeza de que o que realmente procurava o rapaz-homem era mesmo o (seu) “Eldorado”. Resta-nos ainda, a vaga memória do hino adoptado na sua escola, um breve excerto do poema inscrito em Lyrics Paroles, “Cavaleiro Andante” e celebrizado entre nós por Rita guerra:

 (…)

 E eu que jurei nunca mais cair
Nesses teus ardis nunca mais seguir
Esse teu olhar, esse teu olhar
De nada nos vale tentar fugir

Para quê negar, ou se quer fugir
Desse mal de amar, desse mal de amar
Chega quando quer e não quer saber
Nem do mal que fez ou que vai fazer, é um tanto faz

Querer ou não querer
Chega assim cavaleiro andante,
Louco e triunfante
Como um salteador
P’ra no fim nos deixar a contas
Com as palavras tontas
Que dissemos por amor

 (…)

 José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência, 21/10/2009

2 Responses to “ERA UMA VEZ… ou HISTÓRIA DE UM CAVALEIRO ANDANTE”


  1. 1 Raul Martins 25/10/2009 às 22:58

    Grande amigo!
    Tudo bem contigo? Só venho aqui de soslaio deixar-te um abraço, retribuindo a tua visita pelo meu “baú. Tenho lido um que outro artigo teu no Aidiência.
    .
    Passarei por aqui com mais tempo para integrar-me melhor nos teus pensamentos e debatermos algumas “coisitas”. Um abraço.

    • 2 grijo 26/10/2009 às 14:04

      Obrigado, meu “velho” amigo e companheiro.
      A vida nos juntou; a vida nos separou; a vida nos voltou a aproximar através das novas tecnologias.
      É isto que prezo e alimento, na senda de um sonho missionário que continuo, diria, continuamos a trilhar, ainda que noutro tipo de implicação social.
      Desejo-te as maiores felicidades.
      Um abraço
      JMCouto


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