Aventura tecnológica nas escolas – tópicos para uma discussão alargada

Segundo declarações da actual Ministra da Educação, em artigo publicado na edição on-line do Jornal Público de hoje, dia 27 de Agosto de 2009,  cerca de 800 mil alunos tiveram acesso a computadores pessoais.  O mesmo sucedeu com perto de 87 mil professores, através dos programas e-escolas e e-professores, respectivamente. Se, em 2005 existiam 73 mil computadores nas escolas, hoje são mais de 228 mil.

Fonte: http://desafios2.ipea.gov.br/desafios/edicoes/30/imagens/educacao30_4.jpgSegundo a Ministra, “Todas as condições de trabalho, de estudo e de aprendizagem melhoraram muito. A questão fundamental são as condições de acesso à informação e ao conhecimento”.

Há muito que gostaria de me debruçar sobre a matéria do “Choque Tecnológico” nas escolas. Mas trata-se de uma matéria sensível e altamente discutível, pelo menos ao nível do 1º ciclo do ensino básico. O uso do computador nas escolas e fácil acesso à informação são fundamentais. O problema reside na necessidade de filtrar e triangular essa informação de tão abundante e dispersa. Este é um trabalho que compete à sociedade em geral e, em particular, aos pais e aos professores. Urge uma tomada de consciência de que nem tudo aquilo a que acedemos é válido, pertinente e significativo, atendendo aos objectivos formativos.

Não é por haver mais computadores nas escolas que a aprendizagem melhora. Não é por aumentar o número de professores habilitados para o uso de ferramentas tecnológicas que o estado real do nosso sistema educativo mudará. Creio que se está a deslocar o centro da educação, o conhecimento e a construção de competências, a aprendizagem, para meras ferramentas ou instrumentos de apoio pedagógico e didáctico. O que se quer ensinar e aprender na era actual, nesta hora global? Vamos perder a nossa identidade social e cultural e, simplesmente, globalizar conhecimentos e práticas? O que fazer com o computador em contexto de aula? Que informações seleccionar? Como organizar essas informações? Como podemos conservar a nossa identidade? Como entrar na universalidade da informação e do mundo sem nos perdermos e descaracterizarmos? Como estabelecer pontos interdisciplinares? Como rentabilizar o estudo e a aprendizagem? Que ligação ao mundo efectivo do emprego e do desempenho profissional? Que postura didáctica, face aos desafios do mundo actual e aos saber para Ser mais pessoa, mais cidadão e melhor concidadão?

Sem uma resposta séria a estas e a outras questões do género, o computador pode constituir, apenas, mais uma oportunidade para se cair num vazio, na passividade, no autofagismo e na descaracterização de uma relação interpessoal socializadora e Adaptado de: http://files.nireblog.com/blogs/mecanico1/files/computador.jpgintegradora. Quando despertos desta letargia informática, as nossas crianças e os nossos jovens sentirão que, de facto, ficaram mais pobres. Sabem muito, de muita coisa, mas sem qualquer utilidade vivencial e existencial.

Relativamente ao uso do célebre “Magalhães” e afins no 1º Ciclo do Ensino Básico, entendo que é absolutamente antipedagógico, pelo menos nos três primeiros anos. Numa altura em que as crianças precisam de dominar técnicas fónico-gráficas e de desenvolver aprendizagens elementares e alicerçais, o papel, o lápis e esferográfica são fundamentais. Estes materiais, hoje já considerados rudimentares, continuam a exigir tempo e um constante exercício de metacognição, para uma metacompreensão do lido, ouvido, pensado… Antes de se usar o computador, não será necessário dominar bem, de forma mais ou menos consolidada técnicas de oralidade, escrita e leitura? Num quarto ano, talvez.

Os quadros interactivos são hoje uma realidade incontornável, com enormes vantagens, mesmo nos primeiros anos de escolaridade. Facilitam imenso a vida aos alunos e aos professores. Mas a informação tem que ser reflectida, discutida, digerida e assimilada, convertendo-se em verdadeiro alimento que nutre e não factor de entropia.

Não tenho dúvidas de que o computador permite desenvolver destrezas, conhecimentos e competências nas mais variadas áreas de conteúdo – Matemática, Línguas materna e estrangeira, Estudo do Meio…, estabelecendo pontes interactivas e dialogais, rasgando as fronteiras geográficas e linguísticas.

Sou a favor do uso do computador. Concordo com a Ministra quando afirma que (…) as condições de trabalho, de estudo e de aprendizagem melhoraram muito”. Mas não podemos embarcar no facilitismo e entregar as nossas crianças ao computador, como se dele dependesse a sua realização como alunos e pessoas. Parece-me, honestamente, que se anda a “pôr o carro à frente dos bois”.

O computador, ligado ou não à Net, por si só não desenvolve nada nem ninguém. Falta uma reflexão aprofundada sobre uma pedagogia e didáctica das ferramentas tecnológicas, colocando-as ao serviço da criança. Não ao contrário.

O tempo dirá onde nos levará esta espécie de psicose tecnológica. Temo que a factura vá ficar bem cara, face ao desnorte que por aí reina.

José Manuel Couto

1 Response to “Aventura tecnológica nas escolas – tópicos para uma discussão alargada”


  1. 1 Oliveira 27/08/2009 às 13:27

    Pegando na utilização do computador nas escolas, pergunto eu, que não estou dentro do assunto. Os programas de ensino estão preparados para serem ministrados com o uso de tais tecnologias? Os professores estarão devidamente apetrechados em conhecimentos para orientarem o seu trabalho seguindo a utilização destes novos “materiais escolares”. Quanto á utilização do Magalhães no primeiro ciclo, apenas tenho observado interesse dos alunos, nos jogos e divertimentos que nele encontram, ou por outro lado não sabem o que é um sistema operativo, nem como inicia-lo, assim como os aplicativos nele contidos, na verdade “ o carro anda à frente dos bois “.
    Em Vila Nova de Gaia e pelo segundo ano consecutivo, o município decidiu comparticipar os manuais escolares do primeiro ciclo, não deixa merecer uma nota positiva, assim como tem vindo a suportar o custo das actividades extracurriculares.
    No entanto fica a duvida, serão estes alunos no futuro mais bem sucedidos do que os actuais licenciados desempregados ou a desenvolver actividades sem o mínimo de correspondência ás qualificações adquiridas?

    Cumprimentos,

    Oliveira


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