SOBERANA(S) CONSCIÊNCIA(S)

O acto eleitoral do passado Domingo evidenciou de forma clara e expressiva aquilo que já se esperava, o elevado número de abstencionistas, potenciais eleitores e eleitoras que optaram por não exercer o direito social e político de votar. Melhor, que optaram por exercer o também direito de não votar. Uma decisão da esfera da consciência pessoal. Mas não votar é, na prática, alienar o direito de tomar a palavra e decidir, de forma livre e democrática. Ao contrário do que muitos desejaram, talvez reclamar e punir, ao não votar, com tal decisão acabaram por dar carta-branca a outros para que decidam por si.

Como cidadão atento e responsável, não estou preocupado com a maior ou menor votação que teve cada um dos treze partidos/coligações. O que me parece realmente preocupante e deve merecer aprofundada reflexão é o desinteresse e/ou a indiferença dos cerca de dois terços de abstencionistas. Uma reflexão a fazer não tanto pelos responsáveis políticos nacionais que, por razões óbvias, não têm o necessário distanciamento crítico-reflexivo da realidade. Uma reflexão a fazer sobretudo por cada um de nós, cidadãos anónimos e pelos movimentos cívicos, independentes e, sobretudo, imparciais.

Por que não foram votar? Por preguiça e comodismo? Por razões profissionais ou de saúde? Alguns, certamente. Mas a maioria não, estou em crer, pelas “sondagens” ao pé da porta. Não votaram, simplesmente, por indiferença ou porque quiseram, deste modo, manifestar a indignação e protesto pela falta de esclarecimento, na linha do que escrevemos na passada semana; a desilusão e o descrédito num sistema político/partidário e numa classe política que, apesar da crise, não revela dificuldades nem sensibilidade face aos dramáticos números do desemprego, às asfixiadoras taxas de juro, às reais condições de vida da gente comum, etc., etc.

Fui exercer o meu direito/dever de voto. Mas concordo que a cena política precisa de uma nova configuração, de novos e desinteressados actores e actrizes, de correr com os oportunistas que, como preguiçosas, enfileiradas e viscosas larvas, vão vegetando pelos profissionais, profissionalizantes e misteriosos corredores do pod€r e da fama. O povo vota, os anos passam e o que fica? Sempre os mesmos nomes; sempre as mesmas caras; sempre os mesmos vícios; sempre os mesmos lóbis; sempre os mesmos…, sempre os mesmos…, numa espécie de casta superior de gente que se (re)produz a cada minuto.

Conheço os resultados eleitorais, nos planos nacional, distrital e concelhio, nomeadamente de Vila Nova de Gaia. Neste particular, aparentemente surpreendentes. Mas só aparentemente. Contudo, uns e outros não me oferecem qualquer tipo de preocupação. O povo é, realmente, soberano. Sabe o que faz. Mesmo as pessoas mais humildes, que parecem alheadas e desconhecedoras de eventuais cenários e interesses políticos, sabem o que fazer na hora certa. E fazem-no, premiando ou castigando. Como costuma dizer-se, “a voz do povo é a voz de Deus” e “Deus escreve direito por linhas tortas”. Abençoada democracia.

Faço votos para que os agora representantes de todos nós em Bruxelas não se esqueçam das suas origens, objectivos e compromissos.

Ah! Hoje é dia de Portugal e dos Portugueses. De todos, sem excepção. Somos diferentes. Temos uma identidade social, cultural e ético-moral própria. Ninguém tenha vergonha de a evidenciar, promover e afirmar, em qualquer canto do universo, no mais profundo respeito pela diversidade. Esconder a identidade é covardia e traição.

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência de 10/6/2009

2 Responses to “SOBERANA(S) CONSCIÊNCIA(S)”


  1. 1 FRANCISCO MANUEL BORGES 15/06/2009 às 9:48

    Mais um bom artigo, mais um conjunto de openiões que não posso deixar de subscrever.Mas como não sou conformista, não acredito que “a voz do povo seja a voz de Deus” , penso que o que Deus quer é que se mude, o povo diz e com razão ” muda que Deus ajuda”.Votaram os que quiseram e os que poderam, fizeram-no a maior parte, submetidos a um principio de partidarismo doentio que apenas engana a verdadeira democracia e fere a real necessidade de mudança. Costumo dizer que o povo tem o que merece, porque escolhe o que tem, e por muito que se incentive à mudança, a uma mudança séria, o povo que somos todos nós, muda de um sitio para o outro sem sair do mesmo lugar, justificando que são todos iguais. Na verdade uns são mais iguais que outros, e é na experiência de novas politicas que se podem alcançar novos caminhos.No Pais como no Concelho e em Grijó, verificamos serem sempre os mesmos, os que catapultados por partidos chegam ao topo e após a obtenção de cargos, exercem-nos de forma mediocre, sem empenho, sem respeito pelos outros, carregados de vaidades e acima de tudo sem coragem ,de ,em defesa da verdade e da transparencia romperem com climas de suspeição,negligência e despesismo futil.
    O Povo é soberano, pese embora muitas vezes não saiba o que faz,apesar de tudo o que mais louvo na democracia que vamos tendo, é o facto de o rico e o pobre o culto e o menos culto terem direito a UM VOTO, igualzinho para ambos.

    • 2 grijo 15/06/2009 às 14:51

      Não posso concordar com esta apreciação. Mas opiniões são opiniões, logo subjectivas. Cada um deve exprimir livremente o seu pensamento.
      Não concordo precisamente porque entendo que o povo sabe muito bem o que faz. Basta ver a elevada percentagem de votos em branco nas últimas eleições europeias. Votos de protesto e insatisfação. Votos de desconfiança.
      Estive numa das mesas. Conheço o sentido habitual do voto dos eleitores/as dessa mesa. Desta feita, não correspondeu à das últimas eleições autárquicas. Logo, o povo sabe muito bem o que fazer. Muda quando quer mudar. De certeza que o voto de mais de três mil eleitores é mais significativo que aquilo que eu possa pensar. Melhor, é muito mais objectivo do que a minha subjectividade pessoal.
      Abraço
      JMCouto


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