(Con) texturas

Temos conhecimento de que alguns leitores dos nossos artigos de opinião neles se têm revisto frequentemente. É normal que assim seja. É desejável que assim seja! São as virtualidades do texto literário, contexto em que nos movemos há várias semanas, correspondendo, antes de mais, a uma das áreas de interesse pessoal, mas, também, às inúmeras solicitações de leitores/as que, de diferentes pontos do Concelho, nos têm contactado telefónica e pessoalmente.

A maioria dos textos de que nos temos servido provém da tradição oral, prenhe de um saber acumulado, intemporal. À luz das nossas idiossincrasias, experiências e vivências, temos, isso sim, procurado conferir-lhes alguma actualidade.

Estamos certos, contudo, de que, a partir do momento em que o texto chega ao leitor, o nosso artigo se metamorfoseia numa espécie de moeda de duas faces, em que o leitor se converte, ele próprio, em co-autor da obra, melhor, em leitor-autor, na medida em que “(…) reúne uma série de efeitos de sentido” (Bellemin-Noel), lhe atribui sentidos outros, imprevisíveis olhares… que lhe acrescentam novos implícitos. Implícitos estes que se podem tornar, ou não, em novos explícitos, dependendo da interacção estabelecida.

A complexidade semiótica e inter-nodal de um texto pode levar a que o subentendido se torne mal-entendido. Mas tal fica a dever-se ao leitor, à sua leitura, ela própria dependente das suas idiossincrasias, experiências e vivências que, naturalmente, podem entrar em confronto com as do autor-autor. Sendo certo que o autor pode prever o leitor, mas jamais a leitura, análise e interpretação do leitor. Sendo certo, acrescente-se, que autor e leitor estão sempre mutuamente implicados no contexto produtivo e referencial significativo do próprio texto.

No fundo, entre a produção de um texto e a respectiva leitura, medeia o espaço dialógico de intersubjectividades múltiplas, complementares, pelo que o leitor “(…) é sempre postulado como o operador capaz de abrir, por assim dizer, o dicionário a cada palavra que encontra, na tentativa de “(…) abolir pontos de indeterminação”, transcendendo, deste modo, os planos funcional e ontológico em que se move o autor. Ou seja, um texto postula o próprio leitor, crítico, como “(…) condição indispensável não só da sua própria capacidade comunicativa concreta, como também da própria potencialidade significativa. Por outras palavras, um texto é emitido para que alguém o actualize” (Umberto Eco), gerando-se, assim, uma espécie de contexturalização, no seio da qual, como num tear, se entrelaçam as complexas linhas da criatividade produtiva e da imaginação receptora, se constroem complexas e extraordinárias teias de significação.

Por aqui nos ficamos, certos de os leitores do Audiência e, logicamente, dos nossos artigos de opinião, continuarão a ler-nos, a tirar a suas próprias ilações e, acima de tudo, a divertir-se com as façanhas de velhas, mas sempre novas, personagens e situações tão sabiamente urdidas pela tradição popular.

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência no dia 11 de Março 2009

0 Responses to “(Con) texturas”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Calendário

Março 2009
S M T W T F S
« Fev   Abr »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

Arquivos

Estatísticas do Blog

  • 32,325 visitas

%d bloggers like this: