As cigarras e as formigas

Os tempos que correm, de pré-campanha eleitoral, avivam algumas tradições e mostram como as histórias de ontem são de hoje e de sempre.Na senda dos últimos textos que tenho produzido, recupero, desta feita, mais uma fábula de La Fontaine (século XVII), para estimular algumas memórias e personalidades mais imprevidentes.

Conta-se que

 

Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o Verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.


 

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.

“Amiga” – diz a cigarra –
“Prometo, à fé d’animal.
Pagar-vos antes de Agosto
Os juros e o principal.”

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta:
“No verão em que lidavas?”
A pedinte ela pergunta.

Responde a outra: “eu cantava
Noite e dia, a toda hora.”
“- Oh! Bravo!” – torna a formiga –
“Cantavas? Pois dança agora!”
 

 

Por um processo de alegorização, esta “velha” história pode, facilmente, ser alvo de actualização, representando-se, na formiga, aqueles e aquelas que trabalham incansavelmente, poupando, entregando-se a sacrifícios, para juntar algum grão com que fazer face ao inverno da crise. Na cigarra, pelo contrário, aqueles e aquelas, sobretudo aqueles, no masculino, que passam os dias e as noites a tagarelar, a cantar e a folgar, tangendo as cordas do orgulho, da arrogância, da prepotência, da embustice e, às vezes, da tirania.

A actual recessão económica, o crescente desemprego, os progressivos recurso ao crédito e endividamento, por parte das formigas trabalhadoras, são prova evidente de que o número de cigarras tem aumentado exponencialmente. De que vivem? De que se alimentam? Do esforço, do trabalho, das canseiras alheias. O delas está sempre certo. E quando o barco se prepara para fundear, são as últimas a ser afectadas. Antes que a coisa desse para torto, cuidaram de contratar confortáveis lanchas que as levem rapidamente para um qualquer paraíso. Como criaturas que se divinizaram, esperam salvar-se das águas diluvianas.

Graça por aí, contudo, outra espécie de insectos: aquelas pequenas cigarras que, de tão pequenas, ainda não aprenderam a arte com proficiência e, em lugar de se agarrarem à realidade, continuam a cantar e a dançar. Bem caro lhes vai custar a brincadeira, que as coisas não estão para cantar e dançar. Pelo menos na hora do trabalho! Esperam, talvez a solidariedade de cigarras maiores. Enganam-se, porém. Que as cigarras não são como as formigas que, na força do inverno, sempre arranjam umas migalhas para partilhar com as suas semelhantes.

E então quando se aproximam eleições, é um “ver-se-te-avias”. Trabalhar? Não! Viver com salários normalíssimos, mas sempre miseráveis? Não! Privar-se das habituais mordomias e privilégios? Não! Não gozar férias – dentro ou fora do país? Não!!! Andar sempre com as “calças na mão” para pagar contas? Não! Muitos e muitos nãos, naquilo que é regra de vida para as laboriosas formiguinhas.

Prezadas formigas, sejam previdentes e continuem a juntar as migalhas que puderem. Mas defendam-nas bem das predadoras cigarras. E se alguma destas insistir, façam como a outra: Cantavas? Pois dança agora!” Nisto temos mesmo que estar juntas todas as formigas.

E que tal se formássemos um sindicato das formigas para lutar contra o desvario das cigarras? Esta é uma boa altura, porque o aceso Estio está a chegar, mas a travessia do inverno político, para muitas cigarras, também. Talvez algumas cristalizem enregeladas, para contentamento das formigas.

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência no dia 4/3/2009

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