A lição do mestre cão

Os cães são uns grandes oportunistas. Todos sabemos. Sempre que o olfacto lhes acena um bom pitéu, lançam-se-lhe ferozmente. Lutam. Matam. Mesmo bem servidos e de barriga cheia, pode a fome saciada mais que a razão e, às vezes, é a perdição.

É assim; sempre assim foi. Desde tempos imemoriais, conta-se que levava um cão na boca um pedaço de carne e passava com ela um rio. Vendo no fundo da água a sombra da carne maior, contudo, soltou a que levava nos dentes, para apresar a que julgava ver dentro da água. Porém, a corrente do rio levou para baixo a verdadeira e, naturalmente, a respectiva sombra. Assim, ficou o cão sem uma e sem outra.

Ganância. Pura ganância, diremos nós. Não lhe bastava ficar com o já tinha, garantidamente? Por que quis ele agarrar presa maior?

É a lei da vida. Lá diz o ditado que “quem tudo quer, tudo perde”.

(In)felizmente, estas coisas não acontecem só no mundo animal desarrazoado. Para desgraça de alguns políticos, a cobiça, a ambição e a avidez de poder leva-os, imprevidentes, à semelhança do dito cão, a trocar o certo pelo incerto. Por que não aprendem eles a lição do canídeo? É que, quando a coisa corre mal, leva a torrente do tempo o certo e ficam de mãos a abanar, chorando copiosas lágrimas de arrependimento. Falsas, claro. Puro teatro. Arte em que se foram convertendo em audazes feiticeiros. Mas a aparente autovitimização destina-se, apenas, a entreter os circunstantes, na esperança de abocanhar novas oportunidades e, depois, vingarem-se a torto e a direito dos seus consortes, numa lógica de que cão abatido, naco sobrante. E assim andam por aí, com “um olho no burro e outro no cigano”, sempre à espreita, à procura de cravar o dente em mais apetecível osso.

Lá chega o dia, porém, em que, desacreditados, fogem de tudo e de todos. Tornaram-se em matéria desprezível, geraram desconfiança à sua volta e, deste modo, vão errando por aí, cada vez mais sós e abandonados. Tudo poderia ser diferente, muito diferente, não fora desconhecerem que a virtude está no repartir, não no arrebanhar.

Político honesto não deseja dar passos maiores que a própria perna. Vive feliz e honrado como cão que, satisfeito, tropeça em enganoso osso, mas passa ao lado. Também os há, estamos certos!

Voltando aos cães, não sejam abandonados. Lembre-se a boa gente que são sempre fiéis amigos. Se não rendem na caça, aproveite-se-lhes, ao menos, o ladrar, que cão que ladra guarda a casa.

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência, dia 25 / 02 / 2009

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