DRAMA (inter) NACIONAL

A um ritmo cada vez mais alucinante, temos sido confrontados com novos casos de falência e, consequentemente, o aumento do número de desempregados. O País está cada vez mais pobre. Melhor, a esmagadora maioria dos cidadãos está cada vez mais endividada e mais pobre. Contudo, como nos pratos de uma balança, se uns caem, os outros sobem. Estes à custa daqueles.

Mesmo as grandes empresas, os mais ricos homens do País, não resistem à tentação de se abotoarem à actual recessão económica e desencadearem torrentes de desempregados. Serviram-se de imensuráveis subsídios nacionais e internacionais e, agora, para não perderem estatuto, lançam às feras aqueles e aquelas que os ajudaram a ser quem são. Não valeria a pena o esforço, diria mesmo, algum prejuízo, serem relegados para segundo ou terceiros lugares no ranking dos mais ricos do País, e abraçarem a causa social, não despedindo, mas garantindo alguma dignidade e qualidade de vida aos seus trabalhadores? As pessoas não podem ser simples fraldas descartáveis!

Poderá o Estado continuar a sustentar determinados bancos, que esmagam os seus clientes com spreads cada vez mais acentuados? Por que teremos nós, consumidores, que pagar oito ou nove vezes o valor de um empréstimo? Para alimentar buracos de valor incalculável, que alguns vão cavando em proveito próprio, sem qualquer tipo de pejo ou remorso? Só no BPN, soube-se na passada semana, existe um fosso de mais de 180.000 milhões de €uros.

Poderão empresas como a PT, a EDP, e outras, continuar a apresentar lucros astronómicos e a aumentar os preços dos seus produtos?

Há dias, vimos e ouvimos um empresário da área do calçado, do Norte do País, vangloriar-se de ser dono de uma das maiores indústrias de calçado, nos planos nacional e europeu. Em apenas cinco anos, em tempos de inusitada crise, tem vindo a acumular lucros atrás de lucros, porque o seu objectivo é ser o rei do calçado na Europa. Ouvidos alguns dos seus funcionários, ficámos a saber que a dedicação e o zelo, pela conservação do emprego, valem-lhes tão só o ordenado mínimo. É a tão propalada economia de mercado de que alguns, mais sagazes, sabem aproveitar-se para se afirmarem.

O país está mergulhado numa onda de crescente desânimo e descrença no futuro. Milhares de famílias estão desesperadas, asfixiadas.

Não basta limitar as deduções fiscais às classes mais ricas e reduzir os impostos à martirizada classe média, prioridade anunciada no passado Domingo, no Porto, pelo Primeiro-ministro. Não, não basta. Trata-se de uma medida fundamental, mas não basta.

Urge uma política de grande rigor e contenção de despesas correntes no seio das instituições estatais. Porquê veículos topo de gama, muitos deles acima dos 100.000 €uros? Porquê consumos desmesurados ao nível das telecomunicações? Porquê o pagamento de rendas elevadíssimas, viagens em primeira classe, nos comboios e aviões? Porquê acesso a cartões de crédito sem qualquer controlo? Porquê salários descomunais, tão distantes da média nacional? Porquê? Porquê?

A gula de alguns rouba o necessário e merecido alimento a muitos, muitos outros.

E os jovens, esses, vão procurando fugir a toda a pressa para um qualquer país da Europa, ou não, desesperados, à procura de emprego e de ordenados compatíveis com as suas necessidades mais elementares. Sabemos do que estamos a falar. Partem. Com os bolsos vazios e o coração cheio de esperança e muitas saudades.

Na passada semana ouvíamos, comovidos, uma breve entrevista de um cidadão nortenho que, caído no desemprego, procurou Inglaterra. Numa empresa de transformação de queijos, em apenas três meses encontrou condições para adquirir casa, automóvel e levar a sua família para junto de si. Durante este período, chorou amargamente a partida do seu País, o abandonar da mulher e os filhos. Mas sabe, hoje, que foi o preço a pagar para construir um futuro sólido.

No País da subsídio-dependência faz falta uma mentalidade progressista, mais fraterna, onde a primeira das ambições seja a felicidade e o bem-estar de todos. Não apenas de alguns.

Urge criar uma consciência de cidadania plena, em igualdade de circunstâncias. Ninguém é mais que ninguém. Acreditamos que é possível mudar este estado de coisas. Basta que os senhores do poder queiram e sejam os primeiros a dar o exemplo. Porque a factura da recessão tem que ser mesmo para todos. Não apenas para os mesmos de sempre. Por nós, basta de falsas esmolas, que revertem sempre em proveito próprio, preferencialmente sob a forma de voto, gesto mágico com que alguns alimentam a insustentável e “abútrea” voracidade de poder.

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência no dia 11/02/2009

0 Responses to “DRAMA (inter) NACIONAL”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Calendário

Fevereiro 2009
S M T W T F S
« Jan   Mar »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728

Arquivos

Estatísticas do Blog

  • 32,330 visitas

%d bloggers like this: