O Medo anda por aí…

Há muito que persiste em nós uma dúvida, quase existencial: por que razão medo-1alguns autarcas vivem tão obstinados com o poder pelo poder? Mais, por que se vitimizam sempre que deparam com mundividências e idiossincrasias que, de alguma forma, não coincidem com as suas? Pior, por que desdenham e perseguem de forma mais ou menos dissimulada quem tem ideias próprias, quem se move por princípios éticos e morais indubitáveis?

Por que não são os primeiros a reconhecer que já deram o que tinham para dar – leia-se já foram mais beneficiados do que beneficiaram – e não partem à procura de outros portos, para si e para os seus correligionários? Estranho mundo este, dito da política.

Num regime democrático, é normal, é desejável que assim aconteça. Sabendo-se que “o poder corrompe”, cansa, desgasta e atrofia mentalmente muitos dos seus agentes, a rotatividade governativa é absolutamente necessária. A refutação deste princípio só pode ser feita por pessoas cuja actividade política vise mais o interesse pessoal que a promoção do bem comum.

Tem razão Carlos Ruíz Zafón, em O Jogo do Anjo, ao afirmar que

“Quando nos sentimos vítimas, todas as nossas acções e crenças são legitimadas, por mais questionáveis que sejam. Os nossos opositores, ou simplesmente os nossos vizinhos, deixam de estar ao nosso nível e transformam-se em inimigos. Deixamos de ser agressores para nos convertermos em defensores. A inveja, a cobiça ou o ressentimento que nos movem ficam santificados, porque pensamos que agimos em defesa própria. O mal, a ameaça, está sempre no outro. O primeiro passo para acreditar apaixonadamente é o medo. O medo de perdermos a nossa identidade, a nossa vida, a nossa condição ou as nossas crenças. O medo é a pólvora e o ódio o rastilho. O dogma, em última instância, é apenas um fósforo aceso”.

Conhecemos alguns políticos gaienses que, temerosos, têm vindo a transformar medo-2em inimigos todos aqueles que deles discordam pontualmente. Que, em lugar de se preocuparem com o governo da casa, para que foram legitimamente eleitos, fazem do seu dia-a-dia uma perseguição ardilosa a quem os respeita democraticamente, mas, de forma honrada, não os bajula nem idolatra a todo o momento. O receio e o terror são o seu único norte. Agem por medo. Não por convicção e afirmação de ideias próprias, em proveito da comunidade. Isolam-se, perdem a noção do que é trabalhar em equipa e a dimensão fundamental do Nós.

Alguns poderão responder: “São políticos, mas não aprenderam a governar. Chegaram aqui por acaso, por mero populismo e oportunismo” – deles ou de outros que se alimentam do fascínio de uma falsa sombra.

Argumentamos: hoje, a política exige profissionalismo, um saber dirigido, intencional, em proveito do bem comum. E isto não se compadece com a falta de preparação de alguns que, mandato atrás de mandato, continuam a revelar falta de preparação, não melhoram o seu desempenho, cristalizaram na ignorância e na arrogância do quero, posso e mando.

Justifica-se, assim, o pânico face à eventual perda dos privilégios tão ufanamente conquistados. Diz-se, altamente lucrativos. Justifica-se, assim, o combate desenfreado e desigual, face à ameaça da chegada de novas e mais arejadas e honestas ideias de governação. Justifica-se, assim, que tais políticos convertam o medo em ódio; o ódio em traição e mentiras sucessivas.

Gente desta estirpe ameaça a democracia! A política não é para gente com Medo. É para pessoas ousadas, arrojadas, altruístas, que se colocam incondicionalmente ao serviço de uma comunidade, mais ou menos alargada.  Uma espécie de nova missionação. Não uma espécie de fonte “inesgotável” de bens em proveito próprio.

Trata-se, no fundo, de seres desprezíveis que têm medo de si próprios. Da própria sombra, ainda que o não pareça. Vivem na capa de um falso endeusamento.  Mesmo que aparentemente populares, porque de uma popularidade assente na mentira, um dia ver-se-ão sozinhos e desacreditados, vítimas de um espírito mesquinho e fechado sobre si mesmo, de uma má formação pessoal, social e moral.

O que mais graça na nossa sociedade é gente assim. Infelizmente para Nós que, acreditando em mansos cordeiros, com capa de lobo escondida, lhes confiamos o governo da vida pública e ainda temos que lhes pagar por cima.

Enfim, vícios velhos, que se perpetuarão, certamente, por muitos anos ditos Novos.

José Manuel Couto

Publicado no Jornal Audiência no dia 7/01/2009

0 Responses to “O Medo anda por aí…”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Calendário

Janeiro 2009
S M T W T F S
« Dez   Fev »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Arquivos

Estatísticas do Blog

  • 32,325 visitas

%d bloggers like this: