O labiríntico Corredor do Poder

Os profissionais do cultivo da terra sabem que há sementes para quase tudo. Tradicionalmente, guardavam-se amostras de boas colheitas para, maduras, se converterem elas próprias em boa semente para novas e proveitosas colheitas.

Há algumas décadas, porém, tem surgido entre nós uma outra sementeira: os políticos de carreira. Com uma diferença. As tradicionais sementeiras geravam produtos, das mais variadas espécies, que se destinavam a alimentar as populações, a gerar vida. Esta nova sementeira, porém, salvo raras excepções, produz apenas uma espécie de camada superior da sociedade que asfixia tudo e todos à sua volta.

Céu em Fogo

CEU EM FOGO ou OS MORTOS VIVOS

Basta olharmos à nossa volta para concluirmos que a política está cada vez mais a ser tomada de assalto por alguns que dela fazem um modo de ser e de estar na vida. Seres que se alimentam à custa do sangue e do suor dos outros. Muitos doutores, muitos títulos, muitos conhecimentos, muitas influências…, uma quase pescadinha de rabo na boca. Uma sede insaciável de protagonismo Currículos invejáveis, que traduzem uma espécie de teia feudal. Que bem que estão na vida. Gente que nunca fez nada em prol dos outros. Gente que nunca se privou de nada em prol dos outros. Gerem bens públicos a bel-prazer, como crianças que brincam com os seus amigos e distribuem entre si todo o tipo de mordomias. Para estes não há crise: automóveis topo de gama, telemóveis, deslocações ao desbarato, visibilidade narcísica em tudo o que é imprensa, televisões, etc. Gostam de serem vistos. Melhor gostam de ser ver. São seres eleitos, predestinados a pensar pelos outros, a governar os outros. Melhor, a governar-se à custa dos outros. De preferência fora de casa, conscientes de que “santos ao pé da porta não fazem milagres”. É sempre bom ter uma ligação ou outra dentro do sistema, para se poder começar de novo, sempre que necessário, aqui ou ali. Primeiro de forma aparentemente humilde, depois, conquistada a confiança do Zé-povinho, afiar as garras e dizer-lhes simplesmente: ou vergas ou cais. Diz o povo que trazem o “rei na barriga”.

Uma vez chegados ao poder, fazem-se rodear de seres menores, que subjugam, que privam de ideias próprias, que atraem e encantam com pequenos “rebuçados”. Consta-se que uma simples viagem de avião, para quem nunca pensou um dia poder fazê-lo, é suficiente. Fácil e barato. Para alguns, uma espécie de carrossel que talvez não tenham tido em crianças. Se juntarmos a isto uma bilhetinho para um jogo de futebol da equipa com que simpatizámos, melhor. Tudo “grátis”, claro. Se uma qualquer televisão captar e mostrar o rosto de um destes figurantes, tanto melhor. Enche-lhes o ego, é o máximo prazer. Uma espécie de marionetas na mão de sábios manipuladores – de marionetas, claro.

Quase três décadas e meia depois da instauração do regime democrático, no nosso país, quem tentar alterar este estado de coisas vê-se mergulhado num obscuro e labiríntico corredor, num emaranhado de interesses e de tentáculos a que só ideias próprias, rectidão, honestidade, espírito de grupo e de sacrifício podem fazer frente. Tarefa difícil, mas possível. Basta que o povo desperte do longo sono a que o têm sujeitado. Vamos fazendo por isso. Grande Obama!

José Manuel Couto

(Publicado no Jornal Audiência em 26/11/2008)

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