As Cegonhas e as Raposas – a alguns políticos gaienses

Recuperando uma velha tradição nascida na Índia, em tempos imemoriais, sabiamente adoptada por Esopo (séc. VI a. C.) e Fedro (sé. I a. C), La Fontaine seria, no século XVII, o grande responsável pela actualização e divulgação deste tipo de literatura oral um pouco por toda a Europa.

Com o simples recurso à antropomorfização de animais, as fábulas retratam as mais variadas situações da vida do Homem, sobretudo aquelas que reflectem comportamentos socialmente menos aceitáveis, para não dizer reprováveis. Numa altura em que não se pode chamar as coisas pelos nomes, sob pena de pesadas sanções e retaliações por parte de quem detém algum poder, o engenho literário permite, assim, a denúncia, a sátira, a crítica, a caricatura.

Face ao ambiente político-social que se te vindo a gerar em algumas freguesias de Vila Nova de Gaia, aliás, como no município local, interrogamo-nos: não estaremos todos a precisar de recuperar este tipo de prática literária milenar? Voltamos a interrogar-nos: será que os principais visados, os ditos homens – e algumas mulheres – do poder terão capacidade, melhor, humildade suficiente para se reverem nos comportamentos dos ditos animais e nas exemplares lições? Mais: valerá a pena perder tempo com pessoas que não vêem para além do seu umbigo?

Bom, aparte estas considerações, para não perder de vista o nosso propósito, o reino animal, gostaria de recuperar, aqui, a velha fábula da Cegonha e da Raposa, desta feita no plural, porque as raposas “matreiras, fagueiras e lambisqueiras”, para parafrasear Aquilino Ribeiro, têm vindo a multiplicar-se. Mas as inocentes e, aparentemente, ingénuas cegonhas também.

Conta a história que uma raposa convidou uma cegonha para um lauto banquete. A cegonha, educada, afável, sem malícia, não podia deixar de aceitar. Contudo, rapidamente percebeu que tinha caído num engodo. A raposa aproveitara-se dela para saciar a sua fome. Porém, não se deu por achada. Como “cá se fazem, cá se pagam”, a cegonha, respeitando as regras mais elementares dos bons costumes, retribuiu o convite, que foi aceite. Desta feita, virou-se o feitiço contra o feiticeiro e a raposa passou fome de criar bicho. Quando menos pensava, caiu no ridículo. Consta-se que ninguém mais a viu.

Cá para mim, acredito piamente que ainda ande por aí, vestindo a pele de alguns autarcas de Vila Nova de Gaia que, por alturas de actos eleitorais, se abeiram dos vizinhos e incautos amigos suplicando apoios e solidariedade. Até dão pena. Quem é que, tendo bom coração, não presta socorro nestas horas?

Claro que, a princípio, conseguem reunir um bom grupo de cegonhas, que trabalham incansável e graciosamente para lhes dar alimento e os ver felizes. Mas pouco tempo depois, alcançados os seus objectivos, é vê-los todos emproados a regougar desvairadamente: “Sou o maior!”, “Sou o maior!”, prisioneiros do eco da própria voz. Rapidamente se esquecem da solidariedade prometida. Esquecem-se de que, afinal, só atingiram os seus objectivos porque as ingénuas cegonhas lhes serviram o jantar com esmero e dedicação.

Mas as “cegonhas” não são “ceguinhas”. Depois de reflectirem brevemente sobre o engodo em que caíram, incrédulas, passam mensagem umas às outras, reúnem tropas e avançam, para uma vingança que, diz-se, se serve fria, algo de muito indigesto, certamente. Entre elas reina a convicção de que caíram uma vez, mas não caem mais. Pacientemente, começam a desenhar estratégias para apanhar as matreiras raposas e dar-lhes uma grande lição. Consta-se que algumas têm sido apanhadas, mas com muita dificuldade, porque uma raposa, quer se queira quer não, é sempre uma raposa. E então as velhas raposas é que são mesmo difíceis de apanhar. Mas lá vem um dia em que caem nalguma armadilha e “já eram”.

Mesmo as que conseguem fugir e esconder-se, depois de vaguearem uns tempos pela selva, acabam por ter o que merecem. Acontece que, por vezes, ou recuperam o juízo e se tornam mais solidárias com os outros animais ou, simplesmente, encostam-se a outros animais ainda mais matreiros e mais poderosos e acabam por ser devoradas. É que o que mais graça na selva são predadores cheios de fome. Sem ofensa para os verdadeiros animais, é caso para dizer: Maldito reino animal!

Consta-se que andam por aí algumas destas raposas, perdidas, amedrontadas, desconfiadas de tudo e de todos. O problema é quando, desprevenidas, aconchegando-se entre iguais, esperam ser atacadas por um determinado flanco, acabam por ser atacadas por outro e devoradas no seio da própria matilha.

Por mim, não tenho pena deste tipo de raposas. Tenho pena é das pobres cegonhas. Por isso torço para que, passado o susto, afilem os bicos, alinhem as penas e, unidas, façam o que têm a fazer. Raposas, acautelam-se, que as cegonhas andam aí.

Moral da história: deixo à consideração de cada um(a) dos(as) leitores(as) e de alguma raposa que tenha conhecimentos suficientes para ler, analisar e interpretar as minhas palavras. Minhas, não. Da velha fábula.

José Manuel Couto

(publicado no Jornal Audiência no dia 22/10/2008)

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