MIA COUTO E ROSINHA ORFA

MIA COUTO E “ROSINHA “ORFA, DUAS FACES DO MESMO ESPELHO

O conhecido escritor moçambicano, Mia Couto, e a popular poetisa de Serzedo, Rosinha “Orfa”, divulgam publicamente as suas produções mais recentes, em sessões distintas, mas no mesmo clima de encantamento literário, poético e vivencial.

No passado dia 13, Rosa Teixeira dos Santos (“Rosinha Orfa”) publicou o seu segundo livro de poemas. Depois de Fantasia da Vida – Poemas, editado em 1999, surge, agora, Memórias da Minha Vida. Em sessão levada a efeito no pequeno auditório da Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia, a autora, que acaba de cumprir 81 anos de vida, começou por referir que a apresentação pública deste novo trabalho é o cumprimento de um sonho que há muito alimenta.

Ao longo de toda a sessão, as suas palavras e a sua postura deixaram transparecer sempre uma memória viva e fecunda, uma grande frescura física e um coração enérgico, a transbordar de felicidade. A felicidade de poder divulgar as suas Memórias e de se ver rodeada de mais de uma centena de amigos e amigas que tem vindo a construir nos diversos programas de rádio e de TV em que tem participado, nas páginas dos jornais onde se inscrevem alguns dos seus poemas e na próprio meio geográfico em que vive, Serzedo, em Vila Nova de Gaia.

Acompanhada na mesa por Cristina Margaride, actual Directora da Biblioteca, Luís Carlos Moreira, ex-Director da Biblioteca de Perosinho e Ana Pinto Ramos, professora e amiga, Rosinha Orfa fez questão de brindar os presentes com vários dos seus poemas, lidos ou ditos de memória, de forma atractiva e quase teatral, evidenciando a corporalidade da palavra poética.

Num clima de grande afectividade e apreço pelas memórias da vida e obra de Rosa Teixeira dos Santos, vários foram os testemunhos de amigos e amigas que, de uma forma espontânea, quiseram agradecer à autora a sua generosidade e vitalidade, a forma simples e profunda como verseja (sobre) a vida, revelando um sentido poeticamente apurado face às realidades mais comezinhas do quotidiano.

O evento foi dirigido por Carlos Couto e animado musicalmente por Manuel Alberto e Isabel Couto.

No dia seguinte, 14 de Junho, pelas 18 horas, na Casa-Museu Teixeira Lopes, foi a vez de Mia Couto dar a conhecer o seu 23º livro, Venenos de Deus, Remédios do Diabo, na presença de numerosos leitores e amigos.

Ao longo de mais de uma hora, num registo de grande densidade poética, o popular escritor Moçambicano dissertou sobre esta última publicação que, de uma forma intencional, marca um ponto de viragem na sua obra. Aos 50 anos, Mia Couto diz pensar e assumir, como nunca, alguns dos seus fantasmas interiores, como o passar do tempo e a morte, tema unificador deste seu último romance, onde glosa os mistérios, mentiras e enigmas à volta de uma família, em Vila Cacimba, uma localidade imaginária. Revelou que, apesar da absoluta necessidade de tempo para estar só e se embriagar das histórias, resiste cada vez menos à família, aos amigos e, em particular, aos netos, que o convocam permanentemente.

Em resposta às inúmeras questões do público, o autor deambulou por temas tão diversos como a sua relação com o Brasil e com editores e tradutores da sua obra nos mais diversos países, a morte, o amor, a poesia, a ciência, a escrita para crianças, o cinema e a língua. De entre alguns episódios mais humorísticos, narrados na 1ª pessoa, o autor patenteou um estilo muito próprio, uma grande capacidade de observação e tradução do sentimento e da cultura africana, em que mergulha as suas raízes. Assumindo-se, antes de mais, como um poeta que escreve em prosa, sublinhou que a voz do poeta é a voz do silêncio construindo o tempo, porque a poesia é muito mais que um género literário. Ela é, sobretudo, a forma de olhar o mundo e de viver, o saber que transcende as respostas da ciência.

Num tempo tão conturbado, do ponto de vista económico, político e social, as duas obras apresentadas no passado fim-de-semana em Vila Nova de Gaia constituem-se como uma lufada de ar fresco, um convite a uma viagem poética ao mais profundo do ser humano, onde podem redescobrir-se as suas Memórias significativas ou os paradoxais Venenos de Deus, Remédios do Diabo.

Rosinha Orfe, num registo popular, Mia Couto, num outro mais erudito, mais não são do que as duas faces do mesmo espelho: a poesia. Parabéns a ambos. Aguardamos por novos trabalhos.

José Manuel Couto

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