
No dia 13 de Junho de 1654, há precisamente 355 anos, o memorável P.e António Vieira pregava em S. Luís do Maranhão, no Brasil, um dos seus mais notáveis sermões: o “Sermão de Santo António aos Peixes”.
Homem de palavra lúcida, engenhosa, eloquente e sedutora, António Vieira, missionário e exímio pregador, ocupará grande parte dos dias da sua longa vida na defesa dos direitos humanos. Não poupa a Inquisição, pela cruel perseguição dos Cristãos-Novos; não poupa as forças estrangeiras que ameaçam usurpar os nossos territórios ultramarinos; não poupa os desumanos e egoístas colonos que, pela força das armas, procuram subjugar os pobres índios de S. Luís do Maranhão.
Disso se ocupa de forma absolutamente extraordinária no Sermão de Santo
António aos peixes. Recuperando as palavras de Santo António, num estilo forte, erudito, mordaz e contundente, o ilustre orador alerta a sociedade de então para a desumanidade da corrupção instalada, lembrando, para dentro e para fora do meio religioso, que todos somos chamados a ser “sal na terra”. E ser sal na terra é tudo fazer para impedir e combater a corrupção.
O que diria o P.e António Vieira se vivesse hoje, quando a causa da sua irada retórica se generalizou e se constituiu a pedra angular da sociedade, aos mais variados níveis e sectores!? Usaria o púlpito, certamente, não para esmolar votos, mas para, de forma acutilante, na observação dos princípios mais elementares da caridade cristã, malhar a torto e a direito, sem medo, no estrito cumprimento dos bíblicos preceitos da liberdade, justiça e responsabilidade.
Como no seu tempo, “os peixes graúdos” continuam a comer os “pequenos”. Tal como refere, se um peixe graúdo se alimenta de comer muitos pequenos, bastava um daqueles para alimentar muitos destes. Causas desajustadas e contraditórias, consequências lamentáveis. Como na selva, predomina a lei da irracionalidade e do mais forte.
Como no seu tempo, entre tantas outras nocivas espécies, grassam e multiplicam-se os “roncadores”, os “voadores”, os “pegadores” e os “polvos”. Isto é, os orgulhosos, os malévolos ambiciosos, os parasitas e os traidores. Basta olharmos à nossa volta e identificá-los-emos à primeira, sem grande esforço. Não apenas, mas sobretudo, na vida política, nos centros de decisão. Ao abrigo de legais competências, superiormente atribuídas, continuam a colonizar, a fomentar… uma sociedade cada vez mais dividida entre peixes graúdos e peixes pequenos.
Reina entre nós a pseudo-democracia, que a todos obriga a ser sal na terra. Mesmo que contra tudo e contra todos, de forma livre e coerente, no respeito pelos mais íntegros ditames da consciência pessoal, uma das formas de salgar é votar. Aproximam-se novos actos eleitorais. Cumpre-nos, a todos, pessoas de bem, espalhar o sal da democracia, contra a corrupção, o oportunismo e a impunidade. É esta a força que todos temos, no exercício do sagrado direito/dever de cidadania.
Descansa na paz merecida o P.e António Vieira. As suas palavras continuam, porém, actuais e a ressoar como um hino perene à consciência individual e colectiva, por uma sociedade onde os peixes graúdos tenham a humildade suficiente para, de quando em vez, se lembrarem que os pequenos também são peixes e que todos fazem parte do mesmo mar.
Ah! Já agora, quando se comemora o dia de Santo António, sugere-se a (re)leitura da obra de Vieira, nomeadamente o sermão a que aqui aludimos. Um texto de hoje e de sempre, que continua a reclamar o grande milagre!
José Manuel Couto
Publicado no Jornal Audiência no dia 17/06/2009
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